quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A carroça vazia

Certa manhã, meu pai, não o mais sábio, mas muito sábio, convidou-me a dar um "rolê" pela roça. Ele se deteve numa clareira e depois de um pequeno silêncio me perguntou: - Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa?
Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi: - Estou ouvindo um barulho de carroça.
- Isso mesmo, disse meu pai, é uma carroça vazia...
Perguntei ao meu pai:- Como pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?
- Ora, respondeu meu pai, é muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça maior é o barulho que faz!
Tornei-me adulto, e até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, gritando (no sentido de intimidar), tratando o próximo com grossura inoportuna, prepotência, interrompendo a conversa de todo mundo e querendo demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, tenho a impressão de ouvir o meu pai dizendo: - Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Olho por Olho, Dente por Dente.


Hoje um grande amigo e Irmão me enviou um email com o conteúdo abaixo. Ele pediu que eu comentasse a respeito. Assim o fiz.
Segue em azul o email vindo do meu amigo e em preto o meu comentário:
INVERSÃO DE VALORES
Carta enviada de uma mãe para outra mãe em SP, após noticiário na tv.
Vi seu enérgico protesto diante das câmeras de televisão contra atransferência do seu filho, menor infrator, das dependências da FEBEM em São Paulo para outra dependência da FEBEM no interior do Estado. Vi você se queixando da distância que agora a separa do seu filho, das dificuldades e das despesas que passou a ter para visitá-lo, bem comode outros inconvenientes decorrentes daquela transferência. Vi também toda a cobertura que a mídia deu para o fato, assim comovi que não só você, mas igualmente outras mães na mesma situação que você, contam com o apoio de Comissões Pastorais, Órgãos e Entidades de Defesa de Direitos Humanos, ONGs, etc...
Eu também sou mãe e, assim, bem posso compreender o seu protesto. Quero com ele fazer coro. Enorme é a distância que me separa do meu filho. Trabalhando e ganhando pouco, idênticas são as dificuldades e as despesas que tenho para visitá-lo. Com muito sacrifício, só posso fazê-lo aos domingos porque labuto, inclusive aos sábados, para auxiliar no sustento e educação do resto da família. Felizmente conto com o meu inseparável companheiro, que desempenha, para mim, importante papel de amigo e conselheiro espiritual.
Se você ainda não sabe, sou a mãe daquele jovem que o seu filho matou estupidamente num assalto a uma vídeo locadora, onde ele, meu filho, trabalhava durante o dia para pagar os estudos à noite. No próximo domingo, quando você estiver abraçando, beijando efazendo carícias no seu filho, eu estarei visitando o meu e depositando flores no seu humilde túmulo, num cemitério da periferia de São Paulo... Ah! Ia me esquecendo: e também ganhando pouco e sustentando a casa, pode ficar tranqüila, viu? Que eu estarei pagando de novo, o colchão queseu querido filho queimou lá na última rebelião da Febem.
Nem no cemitério, nem na minha casa, NUNCA apareceu nenhum representantedestas 'Entidades' que tanto lhe confortam, para me dar uma palavra deconforto, e talvez me indicar 'Os meus direitos' !

Prezado e Querido Irmão Celso,
Antes de mais nada, quero dizer que sou a favor a vida.
Um dia fui perguntado se era contra ou a favor a pena de morte. Eu respondi que tinha dúvidas. Mais tarde entendi que a pena de morte só geraria mais revolta de pessoas desprovidas de senso e cultura a ponto de transformar tais carências em mais agressividade, pensando em devolver com violência a violência que o mundo os trás. Mas mesmo naquela época, a da minha dúvida, nunca tive dúvidas quanto a legalização do aborto. Sempre, sempre fui contra.
E qual é a diferença? A diferença é que uma vida intra-uterina ainda não teve oportunidades de provar a que veio e o que pode ser capaz de fazer. Ao abortar, uma mãe desesperada poderia estar a matar Beethoven. Poderia matar um filho capaz de mudar a realidade da família, um futuro gênio. Por isso nunca aceitei essa idéia, por mais conveniente que possa ser a algumas pessoas em situação desconfortável.
Mas não foi essa sua indagação, seu pedido de comentário. Então vamos a ele: Lembro-me do saudoso governador de São Paulo, Mario Covas. Em 1995, em visita a FEBEM durante uma rebelião, um dos menores gritava "Não tem colchão aqui". E ele respondia "Mas tinha, só não tem porque você ateou fogo nele". O outro dizia "estamos sem água" e o governador respondia que "antes tinha, mas eles haviam quebrado os canos e por isso ficaram momentaneamente sem". Repare que quem reclama é justamente aquele que causou o problema.
Assim é também fora das cadeias. O cara que reclama que a cidade está suja é o mesmo que joga o saco de Ruffles pela janela do ônibus. O outro que acusa o Deputado é também quem pede um desconto no material de construção para comprar sem nota fiscal. O que reclama do assalto é o mesmo que levou embora o grampeador da firma. Enfim, o crime é o mesmo, muda apenas a sua proporção. E sobre proporção podemos lembrar daquela piada do Costinha, onde ele pergunta se a moça dormiria com ele por 1 milhão de dólares, você se lembra?
Pra finalizar, o que eu quero dizer é que fica muito mais fácil um jovem ser seduzido a entrar para o mundo do crime quando seus valores familiares de honestidade e decência já são fragilizados por incoerências como as citadas acima. Se pode mexer no medidor de energia e enganar a CPFL, porque não pode aplicar um golpe pela internet e enganar o banco Itaú? É tudo em nome da pobreza e da falta de oportunidades...
Solução? Quem dera eu, meu caro Irmão, ter a inteligência de solucionar o sistema! Mas talvez um pouco, com nossa pouca inteligência, qualquer um de nós possa colaborar: Que tal se nós, membros da Sociedade, cada um de nós, tomássemos a iniciativa e deixássemos de dizer que tudo está perdido? Que tal se não entrássemos nos princípios do código de Hamurabi ao querer devolver ao criminoso o sofrimento em iguais proporções? A leis devem ser cumpridas principalmente por quem é honesto, pois o criminoso não as cumpre mesmo. O honesto precisa acreditar e provar por atitudes que ser honesto compensa. O que seria de nós se não acreditássemos nisso? Que tal se déssemos educação, saúde, cultura e trabalho para essas pessoas ao invés de darmos apenas os "bolsa-família" a alguns?
A pena de morte para o bandido já é natural. Mais hora ou menos hora o próprio sistema os abate. E eles ainda acham que compensa!!!

Aguinaldo Oliveira

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A lei da semente


O primeiro livro que escrevi foi para o público infantil.
Eu sabia quanto era difícil publicar um livro, então pesquisei o endereço de 60 editoras de literatura infanto-juvenil, fiz 60 cópias dos manuscrito e as enviei.
Eu me achei muito esperto.
Pensei : "Na pior das hipóteses, vou receber 50 rejeições e poderei escolher entre as demais.
"Adivinhe quantas rejeições eu tive? 61. Uma das editoras me enviou a resposta duas vezes.
Então escrevi outro livro e mandei cópias para as mesmas editoras.
Alguém acabou dizendo "sim".
Se realmente desejamos fazer algo acontecer, precisamos tentar mais de uma vez.
É um princípio natural.
Suponhamos que uma macieira comporte 500 maçãs, cada uma com 10 sementes.
Poderíamos achar que são muitas sementes.
Por que precisaríamos de tantas sementes para plantar umas poucas árvores?
Porque a maioria das sementes não germina.
Esse princípio pode ser aplicado em sua vida.
Você precisará passar por 20 entrevistas para conseguir um emprego.
Você entrevistará 40 pessoas para encontrar um bom funcionário.
Você conversará com 50 pessoas para vender a casa, o carro, o aspirador de pó e suas idéias.
E talvez precise conhecer 100 pessoas para encontrar um amigo especial.
Quando nos conscientizamos da "lei da semente", paramos de nos considerar vítimas.
E não ficamos mais tão decepcionados.
Não se deve levar as leis da natureza para o lado pessoal.
Basta compreendê-las e trabalhar segundo suas regras.
EM POUCAS PALAVRAS
Pessoas bem sucedidas falham com mais frequência.
Elas lançam mais sementes.
Autor Desconhecido
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Solte a panela

Certa vez, um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém, seu faro aguçado sentiu o cheiro de comida e o conduziu a um acampamento de caçadores. Ao chegar lá, o urso, percebendo que o acampamento estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e viu que dela haviam tirado um panelão de comida. O urso abraçou a panela com toda sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo.

Enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade era o calor da panela. Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo seu corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida. Começou a urrar muito alto. E quanto mais alto urrava, mais apertava a panela quente contra seu imenso corpo. Quanto mais a panela lhe queimava, mais ele apertava contra o seu corpo e mais alto ainda urrava.

Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a panela. O urso tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela e, seu imenso corpo, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar urrando.

Quando terminei de ouvir esta história de um mestre, percebi que, em nossa vida, por muitas vezes, abraçamos certas coisas que julgamos ser importantes. Algumas delas nos fazem gemer de dor, nos queimam por fora e por dentro e, mesmo assim, ainda as julgamos importantes. Temos medo de abandoná-las e esse medo nos coloca numa situação de sofrimento, de desespero.

Apertamos essas coisas contra nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, acreditamos e defendemos. Para que tudo dê certo em sua vida, é necessário reconhecer, em certos momentos, que nem sempre o que parece salvação vai lhe dar condições de prosseguir. Tenha a coragem e a visão que o urso não teve. Tire de seu caminho tudo aquilo que faz seu coração arder. Solte a panela!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De vinte em vinte anos

A frase a seguir é do Edgard Scandurra, da banda Ira. Ele disse uma vez que "não se sabe por que, mas de vinte em vinte anos as pessoas descobrem que há vinte anos atrás se fazia uma coisa super legal e tem saudades". Pois então vamos a análise.

Um dia desses, uma fantástica leitora desse blog me enviou um email perguntando o que, na minha opinião, ficaria para a posteridade? O que, no mundo atual se tornaria tradicional e o que se tornaria um clássico? E eu tive alguma dificuldade para responder imediatamente, fiquei pensando uns dias. Acho que hoje conseguirei dar a minha opinião.

Clássico pra mim é o que fica. E como diz o Scandurra, clássico hoje é o que se fazia de legal há vinte anos atrás. Eu, na época, ouvia Ira! Eu curtia o Djalma Jorge Show na rádio Joven Pam, assistia a novela "Que Rei Sou Eu?", ia nos shows de heavy metal no Projeto SP e no Preojeto Leste 1, em São Paulo e, principalmente, tinha o sonho de comprar um Escort conversível equipado com um Rod Star.

E se o Scandurra estiver certo, também serão clássicas algumas coisas de hoje, como o time do Santos de Elano, Diego e Robinho; a sequência de livros do Paulo Coelho, o Honda Civic (um dos carros mais adorados dos brasileiros), o Dan Brown, os Simpsons, os filmes Nacionais (Tropa de Elite, Carandiru, Cidade de Deus); o MSN e Orkut (que praga!); o governo do PT com os 40 ladrões, a febre Evangélica (que converte cada dia mais pessoas usando uma estratégia 100% comercial); etc.

Um outro exemplo de algo clássico nos dias de hoje é a história dos "3 porquinhos", que minha mãe sempre contava. Eu creio que daqui há vinte anos estaremos falando da "Gripe do Porco" e que o Lobo Mau dos anos 2000 tinha medo dos espirros.

Quando o primeiro Ford fizer 100 anos, em 2029, lembraremos desses assuntos ao contarmos histórias aos nossos filhos e netos. Se a banda Ira vai voltar a existir, não sabemos. Mas o certo é que ela continuará um clássico mesmo depois de quase 50 anos, pois marcou uma geração. É só lembrar do que acontecia há 50 anos atrás: Elvis, Creedence, Rolling Stones faziam o tradicional que depois virou clássico. Roberto Carlos era tradicional, hoje é clássico.

E porque as coisas somente viram Clássicas depois de 20 anos, como pergunta o Edgard? Porque clássico é tudo aquilo que resiste ao tempo, no mínimo 20 anos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O homem, seu cavalo e seu cão.



Um homem, seu cavalo e seu cão, caminhavam por uma estrada. Depois de muito caminhar, esse homem se deu conta de que ele, seu cavalo e seu cão haviam morrido num acidente. Às vezes os mortos levam tempo para se dar conta de sua nova condição...

A caminhada era muito longa, morro acima, o sol era forte e eles ficaram suados e com muita sede. Precisavam desesperadamente de água. Numa curva do caminho, avistaram um portão magnífico, todo de mármore, que conduzia a uma praça calçada com blocos de ouro, no centro da qual havia uma fonte de onde jorrava água cristalina. O caminhante dirigiu-se ao homem que numa guarita, guardava a entrada.

Bom dia, ele disse. Bom dia, respondeu o homem. Que lugar é este, tão lindo? ele perguntou. Isto aqui é o céu, foi a resposta.. Que bom que nós chegamos ao céu, estamos com muita sede, disse o homem. O senhor pode entrar e beber água à vontade, disse o guarda, indicando-lhe a fonte. Meu cavalo e meu cachorro também estão com sede. Lamento muito, disse o guarda. Aqui não se permite a entrada de animais.

O homem ficou muito desapontado porque sua sede era grande. Mas ele não beberia, deixando seus amigos com sede. Assim, prosseguiu seu caminho. Depois de muito caminharem morro acima, com sede e cansaço multiplicados, ele chegou a um sítio, cuja entrada era marcada por uma porteira velha semi aberta. A porteira se abria para um caminho de terra, com árvores dos dois lados que lhe faziam sombra. À sombra de uma das árvores, um homem estava deitado, cabeça coberta com um chapéu, parecia que estava dormindo.

Bom dia, disse o caminhante. Bom dia, disse o homem. Estamos com muita sede, eu, meu cavalo e meu cachorro. Há uma fonte naquelas pedras, disse o homem e indicando o lugar. Podem beber a vontade. O homem, o cavalo e o cachorro foram até a fonte e mataram a sede. Muito obrigado, ele disse ao sair. Voltem quando quiserem, respondeu o homem.

A propósito, disse o caminhante, qual é o nome deste lugar? Céu, respondeu o homem. Céu? Mas o homem na guarita ao lado do portão de mármore disse que lá era o céu! Aquilo não é o céu, aquilo é o inferno. O caminhante ficou perplexo. Mas então, disse ele, essa informação falsa deve causar grandes confusões. De forma alguma, respondeu o homem. Na verdade, eles nos fazem um grande favor. Porque lá ficam aqueles que são capazes de abandonar seus melhores amigos...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O homem sem sorte

Vivia perto de uma aldeia um homem, um homem que era completamente sem sorte. Nada do que ele fazia dava certo. Muitas vezes ele plantava sementes e o vento vinha e as levava, outras vezes, era a chuva, que vinha tão violenta e carregava as sementes. Outras vezes ainda, as sementes permaneciam sob a terra, mas o sol era tão quente, que as cozinhava. E ele se queixava com as pessoas e as pessoas escutavam suas queixas, da primeira vez com simpatia, depois com certo desconforto e enfim quando o viam mudavam de caminho, ou entravam em suas casas fechando portas e janelas, evitando-o.
Então além de sem sorte, o homem se tornou chato e muito só. Ele começou a querer achar um culpado para o que acontecia com ele. Analisando a situação de sua família percebeu que seu pai era um homem de sorte, sua mãe, esta tinha sorte por ter se casado com seu pai, e seus irmãos eram muito bem sucedidos, pois então, se não era um caso genético, só poderia ser coisa do Criador. E depois de muito pensar resolveu tomar uma atitude e ir até o fim do mundo falar com o Criador, que como Criador de tudo, deveria ter uma resposta.
Arrumou sua malinha, algum alimento e partiu rumo ao fim do mundo. Andou um dia, um mês, um ano e um dia, e pouco antes de entrar numa grande floresta ouviu uma voz:
- Moço, me ajude. Ele então olhou para os lados procurando alguém. Até que se deparou com um lobo, magro, quase sem pelos, era pele e osso o infeliz. Dava para contar suas costelas.
Ele falou:
- Há três meses estou nesta situação. Não sei o que está acontecendo comigo. Não tenho forças para me levantar daqui.
O homem refeito do susto respondeu:
- Você está se queixando a toa... Eu tive azar a vida inteira. O que são três meses? Mas faça como eu. Procure uma resposta. Eu estou indo procurar o Criador para resolver o meu problema.
- Se eu não tenho forças nem para ir ao rio beber água... Faça este favor para mim. Você está indo vê-lo, pergunte o que está acontecendo comigo. O homem fez um sinal de insatisfação e disse que estava muito preocupado com seu problema, mas se lembrasse, perguntaria. Virando as costas, continuou seu caminho.
Andou um dia, um mês, um ano e um dia e de repente, ao tropeçar numa raiz, ouviu:
- Moço, cuidado. E quando olhou, viu uma folhinha que vinha caindo, caindo; Olhando para cima, viu a árvore com apenas duas folhinhas.
Levantou-se e observando suas raízes desenterradas, seus galhos retorcidos, sua casca soltando-se do tronco, falou:
- Você não se envergonha? Olhe as outras árvores a sua volta e diga se você pode ser chamada de árvore? Conserte sua postura.
A árvore, com uma voz de muita dor, disse:
- Não sei o que está acontecendo comigo. Estou me sentindo tão doente. Há seis meses que minhas folhas estão caindo, e agora, como vês, só restam duas... E, no fim de uma conversa, pediu ao homem que procurasse uma solução com o Criador.
Contrariado, o homem virou as costas com mais uma incumbência. Andou um dia, um mês, um ano e um dia e chegou a um vale muito florido, com flores de todas as cores e perfumes. Mas o homem não reparou nisto. Chegou até uma casa e na frente da casa estava uma moça muito bonita que o convidou a entrar.
Eles conversaram longamente e quando o homem deu por si já era madrugada. Ele se levantou dizendo que não podia perder tempo e quando já estava saindo ela lhe pediu um favor:
- Você que vai procurar o Criador, podia perguntar uma coisa para mim? É que de vez em quando sinto um vazio no peito, que não tem motivo, nem explicação. Gostaria de saber o que é e o que posso fazer por isto.
O homem prometeu que perguntaria e virou as costas e andou um dia, um mês, um ano e um dia e chegou por fim ao fim do mundo. Sentou-se e ficou esperando até que ouviu uma voz. E uma voz no fim do mundo, só podia ser a voz do criador...
- Tenho muitos nomes. Chamam-me também de Criador...
E o homem contou então toda a sua triste vida. Conversou longamente com a voz até que se levantou e virando as costas foi saindo, quando a voz lhe perguntou:
- Você não está se esquecendo de nada? Não ficou de saber respostas para uma árvore, para um lobo e para uma jovem?
- Tem razão... E voltou-se para ouvir o que tinha que ser dito.
Depois de um tempinho virou-se e correu... Mais rápido que o vento até que chegou à casa da jovem. Como ela estava em frente à casa, vendo-o passar chamou:
- Hei!!! Você conseguiu encontrar o Criador? Teve as respostas que queria?
- Sim!!! Claro! O Criador disse que minha sorte está há muito no mundo. Basta ficar alerta para perceber a hora de apanhá-la!
- E quanto a mim, você teve a chance de fazer a minha pergunta?
- Ah! O Criador disse que o que você sente é solidão. Assim que encontrar um companheiro vai ser completamente feliz, e mais feliz ainda vai ser o seu companheiro.
A jovem então abriu um sorriso e perguntou ao homem se ele queria ser este companheiro.
- Claro que não... Já trouxe a sua resposta... Não posso ficar aqui perdendo tempo com você. Não foi para ficar aqui que fiz toda esta jornada. Adeus!!!
Virando as costas, correu mais rápido do que a água, até a floresta onde estava a árvore. Ele nem se lembrava dela.
Mas quando novamente tropeçou em sua raiz, viu caindo uma última folhinha. Ela perguntou se ele tinha uma resposta, ao que o homem respondeu:
- Tenho muita pressa e vou ser breve, pois estou indo em busca de minha sorte, e ela está no mundo.
O Criador disse que você tem embaixo de suas raízes uma caixa de ferro cheia de moedas de ouro. O ferro desta caixa está corroendo suas raízes. Se você cavar e tirar este tesouro daí vai terminar todo o seu sofrimento e você vai poder virar uma árvore saudável novamente.
- Por favor!!! Faça isto por mim!!! Você pode ficar com o tesouro. Ele não serve para mim. Eu só quero de novo minha força e energia.
O homem deu um pulo e falou indignado:
- Você está me achando com cara de quê? Já trouxe a resposta para você. Agora resolva o seu problema. O Criador falou que minha sorte está no mundo e eu não posso perder tempo aqui conversando com você, muito menos sujando minhas mãos na terra.
Virando as costas correu mais rápido do que a luz, atravessou a floresta, e chegou onde estava o lobo, mais magro ainda e mais fraco.
O homem se dirigiu a ele apressadamente e disse:
- O Criador mandou lhe falar que você não está doente. O que você tem é fome. Está a morrer de inanição, e como não tem forças mais para sair e caçar vai morrer aí mesmo. A não ser, que passe por aqui uma criatura bastante estúpida, e você consiga comê-la.
Nesse momento, os olhos do lobo se encheram de um brilho estranho, e reunindo o restante de suas forças, o lobo deu um pulo e comeu o homem "sem sorte".