terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A história de Walter Vieira


Na semana passada eu tive a oportunidade de almoçar com um amigo da década de 80. Conversávamos sobre o Walter Vieira. Este anônimo grande homem foi o meu primeiro gerente comercial. Ele tem uma história fantástica e sofrida, mas que merece ser contada.

O Walter tinha 45 anos e era gerente de uma grande empresa na região de Bragança Paulista. Isso, em meados dos anos 80. Pois foi nessa época que a filha dele morreu. Não sei exatamente do que. Sei que ele entrou em depressão e sua esposa também. E para fugirem das lembranças negativas, eles mudaram-se de cidade. Ele deixou a empresa e partiu para Jundiaí.

Sei que foram morar na periferia da cidade, ruas de terra, aonde o ônibus não chegava em dias de chuva. Passou a procurar emprego em grandes empresas. Porém, alguns meses se passaram e nenhum emprego surgiu. Aí a exigência diminuiu, mas mesmo assim permanecia muito difícil.

Até que um dia surgiu um emprego de balconista numa velha loja de materiais de construção. O Walter se candidatou, mas o entrevistador nem quis ouvi-lo. Disse “o Senhor já tem mais de quarenta anos, não vai querer receber o salário que se paga aqui”. O Walter argumentou dizendo que se não fosse contratado ali, no dia seguinte ele e a esposa já começariam a passar fome.

Ele foi contratado como vendedor. Salário mínimo e uma pequena comissão, que por mais quentes que fossem as vendas, não conseguiria dobrar sua renda. Afinal, aquela loja costumava contratar pessoas como eu, que tinha 14 anos, na época. E o Walter conquistou o cargo de gerente da loja e meses depois me contratou.

Foi nessa época que eu o conheci. Até então, tudo isso que eu narrei são histórias que a mim também foram narradas. Daí pra frente eu acompanhei sua história de disciplinador. Chamava-me a atenção todos os dias. Mas também não deixava de enviar um papelzinho com mensagens de motivação no meio do meu talão de pedidos.

O Walter usava a sua experiência adquirida numa grande empresa para motivar pessoas como eu, um garoto de 14 anos que nem sabia exatamente o que queria da vida. Mas, naquela época, ele já me dizia que “eu tinha jeito pra coisa”. Afirmava que, se eu me empenhasse, seria futuramente um executivo de área comercial numa grande empresa. E eu? Eu nem sabia exatamente o que isso queria dizer. Mas ficava feliz com os elogios.

O tempo passou, eu arrumei outro emprego, ele se aposentou e, por um tempo, não mais nos vimos. Graças a Deus, o Walter estava certo. Quando tive uma oportunidade de crescer, as lembranças daquelas palavras me foram muito úteis, principalmente nos momentos que eu pensei em desistir. Em 1994 assumi como gerente local e no ano 2000, a mim foi confiado o cargo de Gerente Divisional em minha antiga empresa. Nesse último, recebi uma homenagem e na semana seguinte fui até o bairro onde morava meu antigo gerente, tentar reencontrá-lo.

Lá estava ele, mais velho, se dizendo adoecido, numa casa sem muito luxo. Mas com a mesma voz forte, olhar contundente e um forte aperto de mão. Convidou-me para entrar e eu entreguei a ele uma fita VHS da solenidade que me premiara. Conversamos por umas duas horas e eu fui embora. Alguns meses depois não o encontrei mais. Creio que se mudou.

Talvez ele não saiba quanto significaram para mim aquelas broncas e aqueles elogios. Não sei se ainda o encontrarei. Mas, independente disso acontecer ainda um dia, o Walter fez seu papel, assim como hoje eu desejo fazer o meu. Qual a intensidade de sucesso que terei pela frente? Não sei. Mas sei que ele somente será verdadeiro se ficar para a posteridade e isso a gente só consegue transferindo conhecimentos e incentivando os mais jovens... coisa que o Walter fez.

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