domingo, 17 de fevereiro de 2008

Nível profissional e nível de escolaridade

A Cleide, que tem 53 anos, comentou um dia desses que pensava em entrar numa faculdade. Mas segundo ela, seu objetivo nem é aprender mais, já que ela atua como gerente financeiro de uma empresa média e tem ainda o conforto de ser formalmente aposentada. O que Cleide realmente objetiva é calar a boca de uma colega de trabalho, formada, que de tempos em tempos, solta uma indireta sobre o assunto, alegando que tem gente que tem salário alto e não tem nem nível superior.

Essa é uma situação muito comum em empresas médias, já que, com o passar do tempo, as grandes multinacionais tem seus programas de ascensão baseados também no nível de escolaridade do indivíduo. Mas, nas empresas médias, onde o proprietário está regularmente participando do dia a dia do escritório, vale mais a cumplicidade e a confiança que a empresa tem nas pessoas.

A Cleide poderia ter respondido tranqüilamente a sua colega, que tanto se orgulha de ter cursado o terceiro grau, informando que ela está um tanto enganada quanto a forma correta de se calcular o valor de um profissional. Não se quantifica o salário de alguém por quanto ele estudou ou por quantos idiomas ele fala, mas sim por uma outra regrinha que se aprende ainda no segundo grau, quando se estuda economia, que se chama “Lei da Oferta e da Procura”.

Segundo essa lei, se há mais profissionais no mercado capazes de exercer aquela missão do que vagas disponíveis, o salário de tal profissional abaixa, considerando que, se um não quer a vaga, outro quer. Porém, quando há uma vaga com escassez de mão de obra qualificada, o profissional contratado tende a receber salário melhor, pois a empresa não desejará perdê-lo.

O que talvez a colega da Cleide também não compreenda, é que “nível profissional” é diferente de “nível de escolaridade”. Quando um cidadão estuda por completo uma faculdade de direito, ele se torna um cidadão com nível de escolaridade superior. Mas isso não o torna um profissional de nível superior, pois ele precisa, antes de tudo, aprender a fazer alguma coisa com diferencial, ou seja, fazer alguma coisa como poucos podem fazer. Uma pessoa formada em faculdade é facilmente encontrada no mercado, enquanto que uma pessoa que faça bem uma tarefa difícil, com dedicação e confiança é cada vez mais rara.

No início dos anos 90 eu trabalhava no Departamento Fotográfico de um grande jornal. Naquela época, recentemente havia sido regulamentada a profissão de “Repórter fotográfico” e, justamente por isso, muitos antigos profissionais trabalhavam legalmente sem terem cursado jornalismo. Um deles era o Neldo, um senhor de cerca de 60 anos, que chefiava uma equipe de mais 8 fotógrafos formados ou em formação universitária. Naquela época já surgiam esses papos, de que profissionais como ele eram coisas do passado. Foi num desses momentos que Neldo, já com seus cabelos brancos e dificuldade para andar, desafiou sua equipe a fotografar no domingo, a bola exatamente em cima da linha do gol, no jogo entre Guarani e Ponte.

No domingo lá estava ele no campo, com mais 4 outros profissionais mais graduados. O jogo foi zero a zero e todos voltaram para o jornal com belas fotos do jogo, mas sem o desafio cumprido. Todos, menos Neldo. Ele havia clicado o momento em que o goleiro da Ponte Preta salvou uma bola bem em cima da linha. Eu acho que isso explicou porque o Neldo era chefe e ganhava mais. Ele cumpria sempre o seu objetivo.

Voltando a Cleide, vai o meu conselho de fazer sim uma faculdade, mas não para contentar ou calar sua amiga, mas para ganhar conhecimento, experiência e fazer novas amizades. Para a colega da Cleide eu dou um outro conselho: comece a se preocupar menos com o salário dos outros e se preocupar mais em sempre cumprir o seu objetivo. Fazendo assim, um dia você será reconhecida, assim como hoje é a Cleide.

3 comentários:

  1. Nossa! Traduziu em palavras uma coisa que eu sempre pensei. Parabéns.

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  2. Um novo Max Gheringer (se escreve assim?) está surgindo! Mesmo estilo e claridade para explicar uma coisa que para muitas pessoas (Colegas da Cleide) NÃO é obvio, mais deveria ser neh?

    Abraço

    Roberto

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  3. Fabuloso, muito bom. Gostei

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