segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Como La Cigarra


Eu gostaria de dividir com todos a letra de uma canção de Mercedes Sosa, que recentemente subiu aos céus. Essa música tem Idioma original o espanhol
Tantas vezes me mataram
Tantas vezes morri
Entretanto estou aqui
Ressuscitando
Graças dou à desgraça
E à mão com punhal
Porque me matou tão mal
E segui cantando
Cantando ao solComo a cigarra
Depois de um ano
Debaixo da terra
Igual sobrevivente
Que volta da guerra
Tantas vezes me apagaram
Tantas desapareci
A meu próprio enterro fui
Sozinho e chorando
Fiz um nó do lenço
Mas esqueci depois
Que não era a única vez
E segui cantando
Cantando ao sol
Como a cigarra
Depois de um ano
Debaixo da terra
Igual sobrevivente
Que volta da guerra
Tantas vezes te mataram
Tantas ressuscitará
Quantas noites passará
Desesperando
E à hora do naufrágio
E à da escuridão
Alguém te resgatará
Para ir cantando

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Que horas são?

Faz uns 15 dias, minha esposa encontrou alguns textos antigos datilografados em laudas de papel jornal. A maioria deles é de 1990 e eu os escrevi na época em que eu e ela começavamos a namorar. Este que segue aqui foi escrito por mim numa noite de domingo em que ela resolveu não sair e eu protestei por ficar sozinho em casa. Na época eu tinha 18 anos e escrevia usando uma máquina manual Olivetti, daquelas portáteis.

Observem o texto:



Que Horas São?

Hoje é domingo e já é noite. Eu estou com o saco cheio de ficar em casa mas não tenho onde ir. Fui assistir televisão e só encontrei porcarias, como o Fantástico e Silvio Santos. Fui pro meu quarto, liguei a luz e o ventilador, depois coloquei um som, fiquei ouvindo o disco dos Rolling Stones, mas ainda não estava satisfeito.

Tentei pentelhar a minha mãe, mas ela foi dormir. Meu pai chegou e me deu uma puta bronca por eu deixar a luz e o ventilador ligados sem eu estar usando. Resolvi então ler. Só não achei nada interessante. Fui fazer a barba, mas desisti, pois além de estar meio escuro, a lâmina já estava gasta. Pensei em ir brincar com meu cachorro mas ele preferiu ir latir no portão do que ficar comigo.

Depois dessa eu fui olhar a lua, mas havia nuvens no céu e eu fiquei olhando as nuvens mesmo, até que um monte de formigas vieram me rodear. Então fui até a geladeira pegar coca-cola, mas meu irmão tinha bebido tudo. - DROGA!!!

Peguei uma folha de papel e minha máquina de escrever e comecei a bolar um texto. Só que no finalzinho a fita preta parou de rodar e eu fui obrigado a terminar em vermelho. Daí por diante eu fiquei com um sono danado que fui dormir e nem me lembrei de desligar a luz e o ventilador.

domingo, 11 de outubro de 2009

Por que se demite alguém?


Dizem que o que os olhos não vêem o coração não sente. Talvez essa frase tenha lá sua razão, pois o coração realmente não sente, mas paga as conseqüências. Quero dizer que o coração não sabe que sente, mas sente. É o caso daquele homem que vive por toda a sua vida no Pólo Norte. É claro que sente frio, mas ele não sabe o que é “não sentir frio”. Isso então se torna normal.

Há algum tempo conversei com um tio, já aposentado. Mas daqueles aposentados que ainda trabalham. Diga-se de passagem, que tem uma vitalidade invejável para um homem de sua idade. Ele na vida já foi tudo: lavrador, operário, pedreiro, garapeiro a recentemente trabalhava como auxiliar de expedição numa tecelagem. Em nossa conversa meu tio se mostrava indignado com a tal da tecelagem que havia dispensado-o, já que, segundo ele, “nunca havia faltado um só dia”.

Como diria um famoso palestrante, “não era pra faltar mesmo não”. Pois sim, era isso que eu imagino que estava escrito no contrato de trabalho do meu tio. Que ele iria trabalhar todos os dias. Afinal isso é o mínimo que se pode esperar.

É como aquele que expõe seu valor: “sou honesto, nunca matei nem roubei...”. Estranho! Minha mãe sempre me dizia que isso era básico – ser honesto – portanto não é uma virtude a ser considerada. É como tomar banho todos os dias: é básico.

Mas voltando ao meu tio, ele estava indignado quanto a ser dispensado pela empresa. Pois quantos outros amigos nós temos que não se conformam em serem dispensados ou advertidos pelas suas empresas alegando que trabalham bem. –Eu cumpro minhas obrigações todas corretamente!”

Se fosse formalizada uma pesquisa, com as empresas que demitiram empregados perceberíamos que a grande maioria teve como motivo da dispensa fatores alheios à técnica. Imagino que grande parte fora dispensada por problemas de relacionamento com o grupo de trabalho, por revolta pessoal com o chefe ou colega de setor, por trabalhar com “cara de saco cheio”, além de outras inúmeras atitudes extra técnicas. Mas também imagino que quase que 100% dos empregados acham que foram dispensados porque houve “corte”, reformulação ou mesmo falha no trabalho.

Você, leitor, já imaginou o diretor de RH dispensando um funcionário e justificando: “-você é mal educado e cheira mal...”? É claro que não! É muito mais confortável para o diretor dizer que são contenções de despesas. É também muito mais confortável para o ex-empregado acreditar nisso, pois não fere sua auto-estima.

Eu, numa oportunidade como chefe, demiti uma professora. A moça era muito boa tecnicamente, mas cometia gafes incríveis, como levar sacolas de malhas para vender antes das aulas ou comentar problemas pessoais com os alunos. No dia de comunicá-la da dispensa, depois de vários avisos anteriores, eu expliquei os motivos, como normalmente o faço. Inesperadamente ela me respondeu agressivamente: “-pode falar, pode falar... fale que não gosta das minhas aulas, não precisa dar desculpas...”.

O que falta para o meu tio, para essa ex-professora e para a maioria das pessoas no mercado de trabalho é querer ver a realidade, para que o coração possa sentir. Também já dizia outro ditado: “o pior cego é...”