quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Onde estará o Doutor Edgar?

Publicado originalmente em 19.06.2007, às 19:58:48 em http://aguinaldocps.blog.terra.com.br

Eu tinha 20 anos e comecei a sentir uma dor abdominal. Fui ao médico do convênio, mas ele nem olhou para minha cara e já disse que eu deveria fazer uma endoscopia. Confesso que isso me assustou um pouco e por isso voltei pra casa meio chateado, com o exame marcado para a manhã seguinte.

Chegando em casa uma amiga de minha mãe comentou que em Campo Limpo Paulista havia um médico, já velhinho (estávamos em 1992), que costumava acertar esse tipo de diagnóstico. Pois bem, telefonei no número que ela me deu e atendeu a secretária, chamada Luisa, marcando uma consulta para o dia seguinte. Imaginei um baita consultório, com ar condicionado, porta automática e coisas mais.

Pois fui ao consultório orientado a parar em frente ao Paço Municipal. Estacionei o carro em frente à prefeitura daquela cidade e atravessei a rua. Encontrei o endereço. Um portão aberto ao lado de uma loja, um corredor que levava aos fundos, numa sala baixa, com uma japonesa a resolver palavras cruzadas. Ela me atendeu muito bem, me pediu para esperar e eu fiquei pensando se esse tal médico saberia mesmo me diagnosticar, afinal o seu consultório era mais simplório que a unidade básica de saúde do meu bairro.

Rapidamente a japonesa (Luisa) fez uma fichinha manuscrita com meus dados (o que era razoavelmente normal para a época) e entregou ao doutor, que veio me receber na porta da sala, com seus cabelos brancos e aspecto de uns sessenta e poucos anos.

O Doutor Edgar pediu que eu me sentasse numa velha cadeira de madeira com estofado, um pouco manca para a direita. Conversou comigo, pediu detalhes sobre a tal dor e ainda me fez umas 50 perguntas de rotina, se tenho isso, se tenho aquilo, coisas que seguramente nada tinha a ver com a dor abdominal.

Em seguida ele me pediu para entrar numa sala ao lado, onde havia uma velha maca, alguns velhos equipamentos médicos, além de uma pequena balança, dessas que temos em casa. Eu me deitei e ele conferiu as juntas dos dedos dos meus pés, das mãos, a coluna, o nariz, a garganta, os olhos, o joelho, até que chegou no abdome e apertava perguntando se doía. Levantei-me, me pesei e saí para a primeira salinha. Ele anotou tudo o que fez, com números, sintomas, etc.

O Doutor sentou-se numa cadeira velha diante de sua mesa, à frente de uma grande estante cheia de livros velhos e novos. Disse-me que eu estava muito bem, mas tinha a vesícula preguiçosa. Ele escreveu num receituário velho, ainda produzido em clichê (modelo gráfico bem antigo), o pedido de alguns exames e me disse: "nem precisa fazer a tal da endoscopia amanhã, porque não vai dar nada, seu problema não é no estômago". Disse-me ainda que só estava pedindo os exames porque um médico tem que se certificar, mas que o resultado ele já previa.

Segui seus conselhos e desmarquei a endoscopia, fiz os exames e voltei já dois dias depois em seu consultório. E foi "batata" (diagnóstico certo). Ele me receitou um remédio moderno no mesmo modelo de receituário velho, com um manuscrito todo desenhado, parecendo convite de casamento. Eu sarei e nunca mais tive nenhum problema com isso.

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No ano de 2002 eu comecei a sentir umas dores no peito e já com "trintão" fiquei meio assustado. Como eu estava passando por uma fase financeiramente magra da minha vida, não tinha convênio e também não queria cair no SUS, lembrei-me do Dr Edgar. Alguém me disse que ele havia morrido, mas mesmo assim eu telefonei para aquele mesmo número. E atendeu uma pessoa chamada Luisa (...).

Enfim, ele estava lá, firme e forte. Como da outra vez cheguei no mesmo consultório e a mesma japonesa pegou a mesma ficha de papel (impressionante) com todos os meus dados. Como sempre o Doutor veio me receber na porta de sua sala e tudo aconteceu exatamente igual a dez anos antes. O diagnóstico foi novamente certeiro (Ácido Úrico elevado) e novamente fiz os exames somente para confirmar.

Porém agora eu firmava uma gostosa amizade com o médico setentão (78, eu acho) e ele me perguntava da escola de inglês, do meu casamento, se estava tudo bem. Me contava com muito orgulho que sua filha estudava em Campinas, que ele odiava ir para lá, que não gostava de carros modernos, odiava o Golf. Contava que adorava vinhos, que segundo ele, vinho não é bebida, é alimento. Me contava de sua chácara na Figueira Branca, que não gostava de praia, que morou em NY, que medicou na Amazônia por muitos anos, que contraiu malária, que atendia em seu consultório gente de diversas cidades, incluindo cidades de Minas Gerais. Ele não gostava do Lula e estava inconformado com sua eleição, dizia que conhecia o Aloísio Mercadante e tinha simpatia por ele, mas pelo Lula não.

Entre essas e outras histórias, eu marcava a cada ano uma consulta, nem que fosse para bater um papo. Entre consulta, retorno depois dos exames e mais um retorno depois de um mês, nós conversávamos horas. Ele cobrava R$ 50 por consulta e me confidenciou que somente cobrava para não se formarem filas em seu consultório, pois na verdade a medicina para ele era um ato de prazer. Um dia eu cheguei lá com uma pasta para guardar documentos e dei de presente a ele. A cada retorno o médico me agradecia novamente pelo presente.

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No ano passado eu tive o último contato com o meu amigo velho. Depois disso fiquei sabendo que ele havia morrido. Não sei exatamente o que aconteceu, mas me parece que uma enchente invadiu seu consultório e estragou seus livros. Ele ficou bem desgostoso e depois de uns dias enfartou.

Depois disso fiquei sabendo de algumas aventuras "Edgarianas" que eu nem imaginava. Me parece que ele já foi político, Secretário da Saúde e até governador nomeado do então território de Roraima. Segundo consta, chegou em Campo Limpo Paulista na década de 70 e lá inclusive concorreu à prefeitura, teve mais de um terço dos votos, mas não foi eleito.

Como minha mãe sempre diz, algumas pessoas não deveriam morrer. O Doutor Edgar não deveria!

2 comentários:

  1. Aguinaldo, serei bastante sucinto nos meus comentários:
    1. no meu tempo - e olha que não sou tão velho! - nem unidade básica de saúde tinha: era postinho mesmo.
    2. quando ficávamos doentes, minha mãe se acudia num 'Seu Milton da Farmácia'. O desespero da mãe estampado no rosto, contrastava com o olhar sereno deste farmacêutico que tinha no bairro da Agapeama. Ele nunca errava um diagnóstico - antes examinava os olhos, a língua, o ouvido, ouvia o coração, pulmão e receitava o remédio na dose certa.
    3. as coisas mudaram bastante hoje em dia, e, independente do SUS ou convênios particulares caros, o atendimento - dizem - é humanizado. Apesar do nome, se baseia na distância entre o paciente e o médico.

    Legais as suas considerações sobre o dr Edgar, será que existem alguns exemplares dele por aí ainda ou estão, assim como o sistema de saúde, 'humanizados'?

    ´
    E isso.

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  2. Conheci medicos e alguns farmaceuticos do mesmo jeitão do Dr. Edgar. Todos que hoje estejam na faixa de 37 a 50 anos devem ter tido experiencias iguais.
    Ha alguns dias estive conversando com um medico, cliente meu, sobre as condições de exercer a medicina atualmente. Ele reclamava que os planos de saude pagam em torno de R$ 30,00 por consulta e que isto é o mesmo que um corte de cabelo. Assim que os medicos - nem todos é claro - se sentem desvalorizados por um sistema mercantilista. Por outro lado, se estes mesmos medicos cobrassem um valor razoável, mais que R$ 30 e menos que R$ 200 talvez tivessem mais clientes particulares, maior rentabilidade financeira e mais estimulo para fazer uma medicina mais "humana" e mais cientifica.

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