quarta-feira, 30 de março de 2011

Liberdade tem a ver com espaço, independência é outra coisa



Porque será que a gente somente ouve o conselho dos mais velhos quando a gente se torna velho? Essa pergunta foi feita ontem por um colega do curso de RH que acabou de completar 26 anos. Na hora, isso foi até motivo de risos, afinal não deixa de ser uma frase de efeito, mas na seqüência, até pelo tema da aula, começamos a discutir o assunto.

A gente cria os filhos dando a eles 100% de atenção, entra em festas exibindo-os no colo como se fossem troféus, os colocamos como centro das atenções em todos os almoços de domingo e vemos as avós, tias e primas os bajularem, fazendo todas as suas vontades a ponto inclusive de interromper uma conversa para ouvir a criança dizer que quer ir ao parquinho. Achamos até bonitinho suas manhas e as confusões de palavras que fazem com o seu idioma em formação. Mas a gente não percebe que, mesmo com tanto carinho, estamos criando uma criança rebelde, porque fazemos tudo que eles querem quando são pequenos e inofensivos e depois podamos suas asas tentando domá-los.

A criança gosta de ser mimada, mas vai se tornando maior e continua com suas manhas, acostumada a ter suas vontades feitas e quando não consegue faz birra. Aos 2 anos chora sem parar, aos 4 simula uma doença, aos 8 vai mal na escola, aos 11 grita com os pais, aos 14 fuma, aos 16 usa drogas e aos 18, para mostrar a todos que já é adulto, se envolve com pessoas “barra pesada” pois com isso tem a sensação de ter alguma autoridade, pois é amigo de fulano de tal. Aí a família se reúne para decidir o que vai fazer. Os parentes tentam conversar, vem o tio do interior pra falar com o garoto, mas no fim das contas nada acontece.

Nessa fase o cara não ouve ninguém porque ele acha todo mundo um bando de chatos, conservadores e mandões, cujo único prazer é controlar a vida dos filhos. Suas atitudes são impulsivas, tem resultados desastrosos, mas os familiares acabam aliviando nas conseqüências, afinal família é família. Só que a mesma besteira que faz em casa, faz também lá fora, gerando problemas para os outros. E como os outros são “outros”, eles não têm dó e as conseqüências chegam a ponto do jovem ter apenas dois caminhos a seguir: ou permanece tomando pancada da vida ou muda. Todos nós passamos por esta fase, a única diferença é em quanto tempo saímos dela e o detalhe é que para alguns a velhice chega antes que consiga sair.

Seguir o conselho dos mais velhos não é caretice quando sabemos escolher quem são os mais velhos a quem a gente quer seguir. Não precisamos seguir o conselho daquela tia que só nos diz pra levar o guarda-chuva em qualquer lugar que a gente for, mas sim seguir aqueles que se tornaram adultos admiráveis e que talvez sejam o “modelo” de adulto que a gente quer ser. Afinal, o adolescente sempre caçoa das modas do passado, mas segue rigorosamente a moda atual, que um dia o tornará motivo de piadas também.

Vale lembrar que o que o jovem sempre busca não é “independência”, como dizia a música do Capital Inicial nos anos 80, pois para ter independência ele precisaria ter responsabilidade, o que normalmente não é preocupação nessa idade. O que buscam é “liberdade”, eles querem ser livres. O problema é que não entendem ainda muito bem o verdadeiro significado da palavra e com o passar dos anos vão percebendo que liberdade está muito ligado a "espaço", que para haver espaço para si, tem que haver para os outros também e o excesso de liberdade de um tira a do outro. Por isso, somente quando nos tornamos mais velhos e nos incomodamos com a invasão do nosso espaço é que damos razão aos mais velhos que um dia se incomodaram conosco.

4 comentários:

  1. Aguinaldo,
    tem muito a ver com o que já foi dito por sabios, quando jovens somos todos de esquerda, como adultos somos todos de centro e acabamos a vida na extrema direita. Os valores mudam, e acabamos nos adaptando a eles. Aquilo que era "careta" há 10 anos, hoje é imprescindivel, e tente falar com eles sbre a educação de seus futuros filhos - nenhum fará o que foi feito com ele, os pais não sabem nada, etc, etc. quando nas cem as crianças, os avós percebem que a educação que é dada aos netos é copia fiel do que foi praticada com os filhos, mudando apenas as terminologias.
    Por tudo isto é que continuo achando que, no aspecto da experiencia, certos estão os japoneses, que veneram os seus idosos.
    Grande abraço

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  2. Criar um filho é fácil, o difícil é educá-lo.

    Ótimo texto, como sempre.

    Paula

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  3. Que o meu relato não sirva de exemplo, somente de relato.
    Tive meu filho muito jovem, aos 23 anos (foi programado). Minha inexperiencia e a a grande vontade de acertar, somada a minha formação mais tradicional, fizeram que eu fosse rigido com ele. Sempre o tratei de igual-para-igual e nos mantinhamos o maior tempo possivel juntos. Sempre tratei de mostrar-lhe que a vida la fora era dura e que os outros jamais teriam a paciencia e a condecendencia para com seus eventuais erros. Creio que boa parte do meu objetivo de educação foi obtido. Quando ele fez 17 anos disse-lhe que eu iria iniciar o preparo do seu presente de 18 anos.
    No seu aniversario o chamei e disse que o presente de 18 anos estava pronto. Ele arregalou os olhos e sorriu. Talvez pensasse que fosse um carro, uma moto ou algo desta envergadura. O levei ate o jardim e o presenteei com duas coisas: Liberdade e Responsabilidade. Frisei muito que a Liberdade doi. Ou seja, para que alguem se torne livre para fazer o que quer a cobrança sera proporcional o que acarretara maior responsabilidade.
    Filhos não vem com manual, assim como nós tambem viemos sem. Portanto devemos aprender com eles e ensinar-lhes nossas descobertas fazendo-os participes e importantes, criando neles a responsabilidade para obter a liberdade.
    E' isso ai.

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  4. Muito bom o texto.

    Agora que terei um filho, comecei a pensar melhor sobre o assunto educação. Não é um assunto simples. É necessário muita paciência e perseverança.

    Aline Nani.

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