sábado, 16 de abril de 2011

Instinto de comando e domínio de poder


Num dia desses eu estava a caminho do trabalho, dirigindo o meu carro pela Via Anhanguera e, como acontece todos os dias, um lerdonildo andava a minha frente na faixa da esquerda e sem que houvesse nenhum outro veículo na faixa da direita. Ao me aproximar dei um sinal de farol, o que em nada resultou. Segundos depois, sinalizei, ultrapassei pela direita e segui viagem. Engraçado é que ao fazê-lo, olhei pelo retrovisor e percebi o motorista do outro carro esbravejando-se e acendendo incessantemente os faróis demonstrando seu descontentamento por ter sido ultrapassado.

No restante do caminho, vim tentando comparar a atitude daquele motorista com algumas atitudes que notamos no mundo corporativo. É muito comum que pessoas acomodadas na empresa, que há muito tempo lá permanecem sem ambição de crescimento, com algum domínio ou liderança, se incomodem no momento que alguém chega com sangue novo e desejando evoluir. Quando alguém vem chegando e acendendo os faróis, este simplesmente tenta fechar o caminho, mesmo sabendo que a ultrapassagem é iminente. Então resta-lhe apenas reclamar e esbravejar.

Outra situação comum é quando as pessoas vivem numa rotina de trabalho tensa, pesada, séria, até com algum excesso de formalidades e, depois de algum tempo chega alguém mais alegre e que transforma o ambiente em algo mais leve, mais divertido. A primeira reação dos antigos é reclamar. Até aí a gente entende facilmente, que algumas pessoas são conservadoras e não gostam de mudanças. Porém outras vão mais longe e, além de andarem devagar, querem que você ande mais devagar ainda e atrás delas.

Há uns 2 anos atrás, na cidade de São Paulo, acompanhei o trabalho de uma empresa com cerca de 8 funcionários, todos acima dos 35 anos. Com a chegada de um novo cliente, um outro departamento teve que ser formado e novas pessoas foram contratadas, a maioria jovens estudantes ou recem formados. Porém, como todos trabalhavam no mesmo local, começou a haver reclamações dos mais antigos quanto ao pique dos novatos, devido as suas conversas paralelas, assuntos pessoais e musica nos computadores. Segundo eles isso quebrava a harmonia da empresa, que sempre foi muito calma.

O chefe da nova turma sugeriu que, para resolver tal situação, eles fossem alocados no 2º andar do imóvel, que até então servia como depósito de tranqueiras. De tal maneira, o ritmo dos mais jovens não incomodaria os mais conservadores e o conservadorismo dos veteranos também não incomodaria os festeiros. O que parecia ser a situação ideal encontrou muita resistência entre os antigos funcionários, pois estes colocaram vários empecilhos, como a perda desnecessária de um espaço útil como o depósito, a necessidade de luzes acesas no andar de cima, o risco de algum funcionário cair da escada, já que terá que subir e descer várias vezes ao dia, etc.

Mas no final das contas, o motivo real que fazia os antigos resistirem era a dificuldade que teriam em controlar a diversão dos outros. Parece que isso, mesmo longe os incomodava. O conceito de “trabalho” que tinham os mais velhos era de algo muito sério e, que onde havia seriedade não tinha espaço para brincadeiras, enquanto os mais jovens acreditavam que fazer o trabalho sério com alegria poderia gerar resultados positivos. O modernista, às vezes peca por não respeitar o conforto dos outros... e o conservador, não só por conservar o seu mundo do mesmo jeito, mas por querer que assim seja o mundo dos outros.

Muitas pessoas desejam viver num determinado ambiente e, por algum egoísmo, fazem questão de que outros também vivam ali. Na maioria das vezes isso acontece por estas não controlarem sua displicência ou seu instinto de comando e domínio do poder.

5 comentários:

  1. Aguinaldo, esta história me soa como corriqueira, principalmente quando tentamos compreender o que se passa pela cabeça das pessoas veteranas. Em "Filtro Solar" me lembro de uma frase que diz sobre a necessidade de ficarmos ao lado dos mais velhos para nos tornar responsáveis, mas para também ficarmos ao lado dos jovens para não envelhecermos. O que acontece é que em muitas corporações, independente do tamanho que possam ter, sempre existe a turma do 'sempre foi assim', 'não adianta fazer algo novo', 'o povo não vai entender', o que só atravanca o progresso. Muitas vezes encontramos dificuldades em tirar uma fórmula que já não mais funciona e somar uma que com certeza trará resultados positivos. A chegada de 'sangue novo' nas empresas sempre causa um mal estar naqueles que, se acomodaram, esperando sua aposentadoria e, o que mais querem, é criar barriga e ficar com os pés sobre a mesa, dizendo que 'sempre foi assim'.
    Quer saber pra chutar o pau da barraca?
    Estou vivendo uma situação assim.
    É isso.

    ResponderExcluir
  2. O Decio, marido, está em um novo trabalho, aos 62 anos de idade
    è supervisor de vendas da TIM/EMPRESA da minha cidade.
    Funcionários na faixa de 2 e poucos anos, outro pique, outro astral. Ele esta gostando a possibilidade de misturar sua experiencia com essa renovação.
    Está adorando a reciclagem

    ResponderExcluir
  3. Que ótimo este blog. Tenho acompanhado desde a semana da palestra em Jundiaí e estou achando o máximo. Abraços!

    ResponderExcluir
  4. Aguinaldo, não esqueça de me convidar, ok? Para que? Ora, para a suas noite de autógrafos, ora! Afinal, essas crônicas TEM que virar livro!
    Abraço

    ResponderExcluir
  5. É Aguinaldo, cada vez leio o seu blog, estou ficando mais seu fã. Você está fazendo um vestibular para escritor, isso sim...O Walter também pensou a mesma coisa, você esta se aperfeiçoando e em breve estará pensando em escrever um livro, pela maneira que você relata em seu blog, falta pouco.....Continue assim...

    ResponderExcluir

Para comentar este artigo, escreva seu comentário, assinale a opção "NOME/URL" e clique em "publicar comentário".

SUA OPINIÃO, FAVORÁVEL OU CONTRÁRIA, É FUNDAMENTAL PARA MOTIVAR O BLOGUEIRO. NÃO DEIXE DE ESCREVER!