sábado, 18 de junho de 2011

Um outro idioma chamado português


Um dia desses, estava eu no balcão de uma loja de fotocópias (também conhecidas como gráficas rápidas) aguardando a minha vez de ser atendido e observei uma cena muito típica do conflito de gerações. Imaginem que Kauê, o arte-finalista de 18 anos, atendia o Sêo Tuta, um senhor de 75 anos que precisava imprimir 50 convites para a festa de aniversário de sua filha. Tuta levou o texto manuscrito e Kauê, com toda a sua atenção, tentava ajudá-lo a encontrar a formatação perfeita. O diálogo foi mais ou menos o seguinte:

- Dá pra deixar essa letra mais forte?
- Como forte???
- É, eu queria mais grossa?
- O Senhor quer em negrito?
- Não, pode ser vermelho mesmo, mas tem que ser mais grossa... assim como ela está nem aparece.
- Então, o que o senhor quer é negrito... fica assim.
- Mas daí fica em duas folhas. Tem que espremer.
- É que essa fonte aumenta com negrito.
- Que fonte?
- Nessa fonte aqui, aumenta quando tem negrito.
- Mas não precisa ser negro não, pode fazer de outra cor. Eu só quero mais espremido... não dá pra espremer?
- Nessa fonte mesmo?
- Não... no convite!
- Sim, mas em qual fonte?
- Não tem fonte, filho. É só texto.
- Tá, o senhor quer que diminua?!? Veja se fica bom... assim.
- Mas aí fica muito pequeno, não dá pra ler. Faz daquele tamanho que estava, porém mais espremidinho. Tem muito espaço entre uma letra e outra.
- Mas é da fonte.
- De novo a fonte?
(Silêncio)...
- Tá, garoto... Então vamos pro outro lado, dá pra revelar essa foto da minha filha na capa?
- Revelar?
- É, você põe a foto dela aqui.
(Silêncio...)
- Eu vou escanear.
(Silêncio...)
- Sêo Tuta, veja se tá bom assim.
- Tá tremido... parece que o fotógrafo tremeu na hora de bater. Ou foi você que escamou?
- Escamei? Eu não...
- O que você falou que ia fazer?
- Eu escaneei.
- Mas você deve ter tremido pra escamar, porque ficou tremida.
(Silencio...)
- É que uma foto pequena como essa não fica boa pra imprimir.
- Não dá pra revelar então?
- Até dá, mas fica com resolução baixa.
- O que é resolução?
- Uma quantidade menor de pixels.
- Do que?
- De pixels.
- Do que?
- De pixels, tem menos pixels, aí desconfigura.
- An?
(Silêncio...)
(Silêncio...)
- Como o Senhor quer que faça?
- Não quero mais, deixa que eu vou pedir pro meu filho desenhar com nanquim, porque esse negócio de computador é muito complicado e não serve pra nada!
- O Senhor está estressado?
- Não. Eu to é nervoso mesmo... E falando nisso, vocês vendem nanquim?
- An?

No diálogo acima, para Kauê a palavra “fonte” como “modelo de letras” é tão comum que já fez parte da sua vida desde o nascimento... mas para o Sêo Tuta, aquilo era linguagem de ET. Do mesmo modo, a geração daquele senhor cresceu fazendo desenhos com tinta nanquim, coisa que hoje somente é usada para tatuagens. Moral da história: Quando você perceber que alguém não está entendendo a sua linguagem, tente falar de outra maneira que possa ser compreendida, afinal um idioma sofre uma certa metamorfose de geração para geração e o bom profissional precisa se adaptar, afinal para ter sucesso, deverá vender para clientes mais idosos.

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