segunda-feira, 18 de julho de 2011

Procurando gente



A lei da oferta e da procura muda muita coisa no mundo. Ela controla preços, ações, anúncios, assim como é também motivo de promoções e propagandas. Quando tem muita procura e pouca oferta de um determinado produto ou serviço, o preço é empurrado pra cima porque mesmo que esteja caro, sempre tem alguém para comprar. Quando a oferta é maior que a procura, os preços caem tentando atrair o escasso consumo.

Mas além dos serviços e produtos comerciais, há um outro tipo de serviço que também é regido por esta mesma lei, que é o mercado de empregos. Se nos recordarmos, nos últimos 30 anos o nosso país viveu uma longa fase de desemprego (quando há mais pessoas procurando trabalho do que vagas sendo oferecidas) e a lei da oferta e da procura achatava os salários. Isso acontecia porque o cidadão sem emprego aceitava trabalhar por menos dinheiro e benefícios para não ficar parado. Com isso o patrão passou anos se aproveitando da situação. Nesta época, o trabalhador saía de casa bem cedo para ir em busca de trabalho, numa era anterior a internet, em que as vagas eram anunciadas em jornais impressos e os curriculuns entregues pessoalmente.

Eu passei por isso, quando ingressei no mercado de trabalho, me lembro que enfrentava filas para simplesmente preencher uma ficha padronizada. Aguardava em locais lotados e não muito confortáveis e os entrevistadores que não tinham a menor preocupação com pontualidade. Mas sim o candidato precisava ser pontual, pois chegar atrasado em uma entrevista de emprego significava simplesmente a sua eliminação. Ao final do processo muitas vezes se ouvia aquele típico "qualquer coisa a gente te liga depois", ou simplesmente "a vaga foi fechada". Quando um trabalho dava certo, valia a pena até aguentar um chefe carrasco, afinal era melhor ter um emprego ruim do que não ter nenhum.

Mas aí veio a estabilidade financeira, o comércio internacional e o crescimento econômico. As multinacionais descobriram que produzir no Brasil era ótimo, pois havia mão de obra disponível e mais de 200 milhões de pessoas dispostas a consumir. Com isso abriram fábricas, geraram empregos e num determinado momento o país passou a ter mais vagas do que candidatos. Então o jogo mudou, o trabalhador passou a ficar mais exigente e a escolher trabalho. Ele vê diversas vagas online, quer ter informações prévias por email e, em muitos casos, tem mais de uma entrevista no mesmo dia. Se der um pouquinho de preguiça, dá o bolo na entrevista de emprego e vai pra casa, certo de que amanhã outra vaga ainda melhor irá surgir. E o patrão, por sua vez, passou a ser mais contido, teve que aprender a ser simpático sob pena de não encontrar funcionários ou mesmo de ser enquadrado nas modernas leis contra o assédio moral. E agora em vez de dizermos que um empregado está procurando emprego, podemos falar que a empresa está procurando gente. 

Antes o patrão anunciava a vaga e o candidato (trabalhador) ia em busca da empresa. Agora, com a internet e as agências online, o trabalhador divulga o seu curriculum e o candidato (empresa) fica procurando quem é que está no perfil que ela consegue segurar. Em alguns casos extremos, percebemos os trabalhadores entrevistando a empresa. Conforme dito, a coisa se inverteu e isso está sendo importante para o país, ainda que seja para que as empresas valorizem mais as pessoas, o que só se aprende a fazer na falta delas. Mas não é a situação ideal, porque com muita oferta de vagas os trabalhadores tendem a se descomprometerem e o resultado pode ser a má qualidade da prestação de serviços para os clientes, coisa que faz todo mundo sofrer. Um equilíbrio maior entre a quantidade de mão de obra e de vagas oferecidas é o melhor cenário, coisa que em breve voltará a acontecer.

Enquanto isso, vamos nos preparando. Valorize seu parceiro, seja ele seu empregado ou seu patrão, pois como não sabemos o que vem pela frente, ele pode te fazer falta.

4 comentários:

  1. MUITO BOM AGNALDO, GOSTEI DA REFLEXÃO. PARECE QUE AS PESSOAS NÃO PENSAM MESMO NO FUTURO MAS APENAS NO PRESENTE. CUSPIR PRA CIMA É SEMPRE UMA ATITUDE MUITO ARRISCADA. EU AINDA TRABALHO AOS 62 ANOS, SOU BEM REMUNERADO E SEMPRE VALORIZEI MEUS EMPREGADORES COMO OS QUE ME POSSIBILITAM TRABALHAR, MESMO QUANDO NÃO HÁ CRISE.
    José Francisco S. Jorge - Varga

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  2. Aguinaldo, muito bom o post. As mudanças no mercado de trabalho são cíclicas, embora haja uma corrente que diga que o emprego como o conhecemos, com jornada definida, salários e benefícios, esteja acabando. Daí, até o governo perceber esta ideia e implementar programas como o Empreendedor Individual, que favorece principalmente os prestadores de serviço - não vale para atividades consideradas intelectuais.
    Este número tende a crescer ainda mais, já que, ninguém que tenha o mínimo de dignidade aguenta ouvir a frase de recrutadores com cara de conteúdo: "Obrigado por ter vindo".
    Mesmo assim, dada a incerteza, é bom sempre deixar uma porta aberta.
    É isso.

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  3. Sempre haverá a eterna rivalidade "Patrão x Empregado". O que se ve atualmente é um exagero desta briga em função, como voce diz, do aumento da demanda pelo recrutamento. Infelizmente, ao contrario do que deveria ser, o que se percebe é uma deterioração da qualidade da mão de obra. Isto se da principalmente pela pessima formação de profissionais, paternalismo do governo e um profundo desinteresse das novas gerações. O emprego hoje em dia se tornou algo volatil. Não se ve mais profissionais criando uma carreira, se não, aproveitando uma oportuinidade aqui outra la. Onde vamos parar? Ah! esta é a grande duvida. Como diz o ditado: Não ha bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe.

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  4. Minha visão é privilegiada sobre este assunto, neste ano divido na metade o tempo em que estive empregado e o tempo em que estou patrão. Quando empregado, via meus patrões como os empreendedores que tinha a responsabilidade do todo e eu a responsabilidade da parte. Hoje vejo da mesma forma, talvez, somente talvez, por isso a excelência tenha sido sempre minha meta. Se estou atingindo? Só olhar pro universo e ver se ele está me aplaudindo! Valeu de novo pela postagem

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