sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Quem vê cara não sabe o quanto custa


Desde criança, eu acho que sempre fui um sujeito empreendedor. Lembro-me de diversas oportunidades em que criei situações para arranjar uns trocados. Na quarta-série eu fazia os melhores aviõezinhos de papel e cobrava dos colegas para ensiná-los a fazerem ou mesmo vendia os meus. Em 83 virou moda o uso das pulseirinhas de crochê e óbvio que eu aprendi a fazê-las, gerando com isso uma pequena renda, que já para me valia o lanche. Na oitava série, já curtidor de heavy metal, eu passava minhas horas de folga pintando manualmente camisetas com o nome das bandas que meus colegas ouviam.

Mas acho que aprendi a ter uma visão empreendedora mesmo com a minha mãe. Ela, com a sua pouca sabedoria livresca, desenvolveu uma habilidade muito grande para vender cosméticos através dos catálogos e eu acho que me contagiei com esse mundo (o das vendas e não dos cosméticos, é claro). Enquanto eu via a minha mãe andar o bairro inteiro para entregar um desodorante, via meu pai criticá-la, dizendo que o lucro não pagava a sola do sapato. Ao mesmo tempo, como diria Nizan Guanaes, nos papos de “empreendedores de mesa de bar”, meu pai se espantava com o pipoqueiro que descia a ladeira com o carrinho cheio de pipoca e subia vazio. Falavam “esse sim, sabe ganhar dinheiro”. A conversa era sempre a mesma: “se ele vende X pipocas por dia a tanto, dá um lucro de Y... a gente não ganha isso trabalhando na firma”.

O problema é que essa teoria da mais-valia, a la Karl Marx, é totalmente furada no mundo do empreendedorismo. Isso porque não se calcula como renda todo o valor do produto, mas somente o lucro. E também, lucro não é toda a diferença entre o que se paga pela matéria prima e o que se cobra na venda, mas sim o que sobra depois de todos os investimentos que precisam ser feitos. Afinal, o pipoqueiro comprava gás, embalagem, precisava fazer manutenção no carrinho, sem contar o imposto que pagaria em tempos atuais.

Muitos funcionários têm mania de calcular quanto ganham por peça produzida e quanto é o preço da mesma peça no ponto de venda. É claro que uma visão crua desse tipo de coisa gera revolta. Mas se fosse fácil colocar um produto no mercado, qualquer um o faria. É preciso calcular o custo de tudo: papelada, aluguel, manutenção predial, mão de obra, custos trabalhistas, embalagem, transporte, marketing, investimentos em vendas, impostos, garantias, perdas, calotes e, principalmente, o risco que se corre.

Se uma empresa abre falência, o funcionário perde o emprego e, no máximo, fica sem receber. O empresário, além de perder o emprego, não recebe nada e ainda fica devendo... ou seja, ele assume o risco do negócio e para que isso valha a pena, precisa mesmo ter um bom rendimento. Se for para assumir tantos riscos e ganhar o mesmo que ganharia para ser empregado, então para que empreender? Mas o detalhe é: No capitalismo, se não existisse o empreendedor, não existiria empregos... só isso!

Ao ler meu último parágrafo, os marxistas  dever ter se revirado nas críticas. Vão dizer que o problema é justamente O CAPITALISMO. Mas em que regime nós vivemos? Aqui, meu ponto de vista é o do empreendedor... não estamos discutindo filosofias políticas.

3 comentários:

  1. Gosto muito de ler seus textos sobre empreendedorismo. Muito elucidativos.
    Mas nesse texto me chamou a atenção a história de sua mãe.
    Ela desempenhando com muito talento e esforço seu trabalho, e o marido não dando o merecido reconhecimento.
    Isso é muito comum, e acontece muito.
    (Olhar Feminino)

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  2. Minha mãe vendia tapeware, me fala mais sobre esta paixão pelos cosméticos..rsrs
    Mas falando sério, como em tudo tem que haver equilíbrio, no capitalismo também, não existe trabalho sem empreendedorismo, assim como não dá pra se empreender sem ter o trabalho, mesmo que neste caso o patrão seja o próprio trabalhador, mas o vice-e-versa não existe, bem lembrado! Valeu!

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  3. Aguinaldo,
    O empreendedor é exatamente isso: o cara que vai planejar, estudar, pesquisar e, principalmente, fazer as contas depois do fim do expediente. Muitos se esquecem do quanto investiram para obterem determinado 'lucro' (chamado assim erroneamente). É importante que gastemos sola de sapato, como a sua querida mãe nos tempos de venda de cosméticos, mas que saibamos também, quanto isso custa, no sentido amplo da palavra como você menciona no "Crônicas".
    Confundir faturamento com lucro é o mal que tem levado muitos 'empreendedores' à derrocada.
    Que o seu post sirva de reflexão também, ao discutir filosofias políticas e econômicas: sempre que se cai nesse vão, corre-se o risco de misturar o ideal com o necessário.
    Quanto aos cosméticos: vai falar que você nunca usou alguns creminhos...(???)

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