terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Conhecimento é uma coisa, Competência é outra


Um dia desses me encontrei por acaso com o Dr Armando na papelaria. Depois fiquei pensando: ele é um cara diferente. Advogado dos bons, transmite muita segurança nas coisas que faz. Lembro-me que uma vez, quando eu tinha 17 anos, me coloquei a observá-lo trabalhar. Um cliente chegou ao seu escritório, explanou uma determinada situação e questionou-o a respeito da viabilidade de uma ação na justiça. Dr Armando fitou-o nos olhos, sem levantar-se da cadeira e com absolutamente nenhuma palavra, virou-se para uma prateleira de livros, buscou um deles, abriu no índice, depois numa determinada página e ficou uns 5 minutos lendo. Em seguida, olhou para o cliente e com um leve sorriso disse: “É viável!”

Essa cena me recorreu na semana passada quando eu ouvi o Professor Indiano Sugata Mitra (um renomado especialista em educação, atualmente trabalhando na Newcastle University, na Inglaterra) falando que a falta de mão de obra no mercado de trabalho hoje, não é originária da falta de educação da população, mas sim de um modelo de educação já ultrapassado, que obriga o aluno a aprender coisas que ele não precisará usar, ou seja, a conclusão final é que as pessoas adquirem conhecimentos inúteis. Ainda segundo o Professor, somos levados a estudar através de modelos pedagógicos criados há mais de 50 anos, quando não tínhamos o recurso da tecnologia disponível, portanto decorar uma matéria era a única forma de conhecimento ao nosso alcance, já que a busca em livros de papel nem sempre era tão rápida.

E é exatamente isso que acontece por aí, as pessoas confundem conhecimento com competência, tem diplomas e um currículo escolar fantástico, mas não sabem fazer as coisas. Tudo isso porque a escola exigiu que esses alunos apenas decorassem determinadas teorias ou regras, que as descrevessem quase que por completo nas provas, exigiu que soubessem responder lacunas criadas por professores à moda antiga, mas não os ensinou o que fazer com aquilo tudo. Enquanto alguns educadores já entendem que a prova com consulta é muito mais próxima da realidade atual do que as pegadinhas do vestibular, outros ainda estão mais preocupados em coibir a cola na prova do que em ensinar os seus alunos a procurarem de uma maneira rápida e pratica as informações das quais necessitam.

Talvez a educação moderna devesse ser mais focada em desenvolver habilidades e competências do que em criar enciclopédias humanas. Se um cidadão sabe de uma maneira geral fazer determinada coisa, os detalhes ele pode pesquisar. Hoje, não há nada que um tablet na mão não resolva buscando em sites confiáveis, que cada profissional pode assinar em sua área específica. Com a invenção da internet, do HD, da Pen Drive, passamos a ter menos necessidade de sabermos 100% de um só assunto para podermos criar habilidades múltiplas, que nos permitem ter conhecimentos medianos em diversas áreas, pois a especialidade pode vir com o tempo de experiência.

Em vez de fazermos como antigamente, quando mantínhamos um HD humano cheio de informações decoradas, podemos hoje usar, como disse o próprio Professor Mitra, a memória de silício em nosso favor. Quem sabe hoje em dia não seja muito mais importante que as escolas desenvolvam no aluno a capacidade da pesquisa do que o conhecimento engessado... e assim como Dr Armando procurava textos para auxiliá-lo ainda no final da década de 80, um jovem do século XXI pode fazê-lo com muito menos esforço, guardando seus neurônios para aquilo que realmente está escasso no mundo que é a arte de resolver.

3 comentários:

  1. As escolas nos preparam para a prova e nao pra vida.

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  2. Concordo plenamente. Ainda, vou mais além. Não acho apenas que alguns modelos de educação escolar estejam ultrapassado, acredito que alguns modelos de educação em casa também precisam ser reajustados.
    O mercado de trabalho precisa sim de pessoas que saibam como lidar com as novas tecnologias, que saibam processar as novas idéias e o turbilhão de informação que lhes chega a cada instante.Mas é preciso também de pessoas, ou melhor, de profisionais que saibam chegar no horário, que saibam ouvir os mais experientes, que saibam respeitar seus colegas de trabalho. Essas qualidades nem sempre são ensinadas nas escolas, ou não são tão valorizadas, mas podiam muito bem voltar a constar no Currículo de Educação Familiar. Costumo dizer que para falta de conhecimento, falta de habilidade dá-se um jeito mas para "falta de educação" não há muito o que fazer depois dos 20 anos.Por ter estudado educação e trabalhar com ela há dez anos, acho que estamos anos Luz da Educação Ideal. Recentemente conheci uma pedagogia antroposófica, que valoriza o ser humano em suas essências e desenvolve suas habilidades nas artes em geral, mas em contra partida não é uma pedagogia conteudista, esta que você se diz contra, até aí muito legal. Porém, essa mesma pedagogia minimiza ou até mesmo exclui seus alunos o uso da tecnologia. O fato é que as escolas se perdem ao traçar suas metodologias. Se preparam os alunos para o vestibular, esquecem do indivíduo. Se preparam o aluno para viver em sociedade, esquecem do tal do vestibular.Difícil não é? Difícil porque nos esquivamos da educação de nossas crianças. A escola é apenas um caminho de aprendizagem, a chamado educação formal. Cabe a nós, família, sociedade, empresa educarmos nossos filhos, cidadãos e profissionais. Não dá para ficar esperando que nossos jovens saiam prontos das Universidades, como um produdo feito em série nas fábricas. Apendizado, formação de caráter não cessam nunca. Talvez o dia que aceitarmos que estamos em constante aprendizado, seja em casa, na empresa ou na ecola, talvez nos frustremos menos com a tal da educação e passremos a enxergar a escola com outros olhos.
    Enfim, Guina não resisti! Adoro esse tema!
    O texto ficou muito bom!

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  3. Concordo plenamente. Está na hora de revermos nossos conceitos.
    Como como diz o comentario acima, há que haver educação no sentido mais amplo da palavra

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