quarta-feira, 18 de julho de 2012

Tem que ser do meu jeito


De uns anos pra cá, tenho tentado ser mais tolerante com as pessoas, principalmente por perceber a cada dia que meus bons amigos tem sido tolerantes comigo também. Porém eu sou contra aquela velha ideia de que “amigos de verdade tem que te aceitar da forma com que você é”. Pra não dizer que isso não tem absolutamente nada a ver, eu poderia considerar uma "meia verdade", afinal nós precisamos entender que algumas pessoas têm características diferentes das nossas e, em alguns casos, até divergentes. Conviver com pessoas de outras religiões, com outros costumes e outros valores é, no mínimo um enriquecimento de cultura. Qualidades e defeitos são características comuns do imperfeito ser humano. Ter amigos com características diferentes faz parte daquilo que escrevemos no artigo da semana passada, o network.
 
Mas não podemos deixar de nos esforçar para corrigirmos alguns defeitos dos quais somos conscientes e que nos atrapalham. Se não conseguimos resolver sozinhos, buscar uma ajuda profissional é uma excelente alternativa, pois um terapeuta conseguirá expor alternativas de reação em casos onde nos vemos caindo no mesmo erro, no mesmo defeito que já nos fez quebrar a cara no passado. Na maioria absoluta e esmagadora das vezes, o maior prejudicado com os nossos defeitos somos nós mesmos... é isso aí: “noizinhos da silva”... E como isso acontece? Dependendo da paciência de cada um, levaremos algumas broncas, seremos estigmatizados com apelidos e num último estágio, quando desistirem da gente, seremos simplesmente ignorados e deixados de lado.
 
Tive uma colega de trabalho nos anos 90, que era demasiadamente centralizadora. Tudo na empresa tinha que passar pelo crivo dela e ser feito da forma com que ela decidisse. Acredito que fazia isso sem perceber, mas era uma necessidade inconsciente de colocar a assinatura em tudo, de dar a última palavra. Com o tempo ela tomou fama de burocrática e ranzinza, pois se havia duas ou três formas de se fazer alguma coisa, ela sempre escolhia aquela que era diferente do que alguém pretendia fazer. Quando outra pessoa tomava uma atitude para resolver um impasse e ela percebia que não havia outra forma de ser feito, no mínimo tentava acrescentar alguma decisão final... “manda com cópia para a diretoria” ou “precisa passar antes pelo jurídico”, ainda que isso não fosse um hábito do departamento.
 
Aceitar que o jeito que o outro fez estava bem feito e completo, para ela era praticamente impossível. Minha colega chegava ao absurdo de pagar mais caro em alguns processos simplesmente por exigir um certificado desnecessário ou um cuidado inútil, apenas para dar o “toque pessoal” e final. Num outro momento, era capaz de criticar aquele que gastou tempo ou dinheiro à toa com coisas deste tipo, pois “dessa vez não precisava”. A pessoa que descrevi acima há muito tempo que eu não vejo, portanto não sei onde está e nem que tipo de sucesso teve. Mas é fato que, na época enfrentou uma razoável freada em sua carreira quando os colegas perceberam seu excesso de vaidade. Lembro-me que nas rodas do café, os mais incomodados diziam que este seu comportamento era fruto da insegurança, da necessidade de aparecer sempre e dizer “eu estou aqui e sou importante para a empresa”.
 
Curioso é que Jacques Lacan, conceituado psicanalista francês, se referia a isso como “sede de narcisismo” ou “Momento do Espelho”, que são estados em que o ser humano produz formas de compensar uma pseudo falta de reconhecimento social, físico ou intelectual a que possa sofrer ou ter sofrido no passado. A vaidade é um sentimento forte e quase incontrolável que, em alguns casos vira uma arma para auto-valorização. Imagino que alguém consiga ser reconhecido muito mais facilmente por dar a oportunidade das pessoas aprenderem e o verdadeiro aprendizado vem quando elas conseguem tomar a decisão. O verdadeiro chefe formador é aquele que fortalece a capacidade de sua equipe agir sozinha, somente prestando contas no final do trabalho desenvolvido.

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