terça-feira, 25 de setembro de 2012

Seu colega de trabalho não é muro das lamentações


No mundo de hoje, uma das maiores necessidades psicológicas do ser humano é falar. As pessoas precisam falar sobre seus problemas, suas angústias e desesperos. Elas precisam contar seus casos, seja para derramar suas lágrimas ou para aumentar sua notoriedade... mas sempre precisam falar. Percebam que escutar já não é tão fácil. A maioria das pessoas se cansa em ouvir, tenta interromper o interlocutor em qualquer brechinha que ele der, querendo chamar a atenção para si.

Num treinamento empresarial, por exemplo, é muito comum que as pessoas que estão sendo treinadas queiram contar casos que aconteceram com elas. Quando não conseguem a atenção de todo o grupo, não satisfeitas elas grosseiramente seqüestram a atenção do seu vizinho de cadeira, fazendo com que este divida a tenção entre ele e o palestrante. Chegam a causar, viciadamente, um “zum-zum –zum” altamente prejudicial ao trabalho que está sendo executado, mas não percebem e, mesmo tomando algumas suaves bronquinhas, mantêm o hábito.

O objetivo que têm de contarem seus cases passa longe de obterem algum tipo de resposta, mas sim de poder expor a sua imagem, seja como sofredor ou solucionador. E normalmente o instrutor, professor ou palestrante que abre a brecha para os seus treinados contarem seus casos, prolonga o trabalho e não consegue cumprir a pauta. A exceção acontece quando o objetivo do grupo é mesmo a interação, discussão e a participação de todos.

A ânsia por falar também pode ser sentida quando um grupo de pessoas se reúne e acontece aquela apresentação básica, onde cada um fala um pouquinho de si próprio. Na maioria absoluta das vezes, se perguntarmos a uma dessas pessoas o que disse aquela que a antecedeu, esta comumente não saberia dizer. As pessoas não prestam atenção no que disse o outro que se apresentou imediatamente antes, simplesmente porque estão muito mais preocupadas em pensar e montar o seu próprio discurso que acontecerá na seqüência do que ouvir o que o outro está dizendo.

Um autor muito conhecido, chamado Ruben Alves, citou em um de seus artigos que as pessoas do novo milênio tem se preocupado muito com os cursos de oratória, mas não tem a menor idéia do que é escutar. Ele inclusive ironiza o assunto afirmando que faliria quem tentasse prover um “curso de escutatória”, pois ninguém iria querer fazê-lo. E a verdade é que escutar é extremamente cansativo. O grande problemna é que esta matemática não fecha, pois se há muitos “faladores” e poucos “escutadores”, alguns faladores precisarão entrar na fila. E como não há nenhuma fila, acontece algo pior, que é “gente falando sozinho, tendo alguém a sua frente que também não está escutando”.

Recentemente percebi uma pessoa na minha empresa que chegava todos os dias com cara de coitada. Entrava na empresa com aquele sorriso amarrado (como se fosse pecado ser feliz), ia para o café e já começava o dia se lamentando. Ela tentava insistentemente encontrar um “ouvinte” para o seu drama e quando o conseguia, derramava todas as suas lágrimas. Tinha até certa ansiedade para chegar logo ao trabalho todos os dias e poder apresentar a sua novela... Essa venda de tragédias somente cessou e parou de contaminar os outros quando armamos um processo de conscientização para dizer que nem a empresa e nem os colegas de trabalho podem ser um muro de lamentações, pois isso leva todo mundo para a depressão. E depressão, como o próprio nome já diz, deprecia...

Um comentário:

  1. Muito bom, e bem feito, parabéns! Realmente, no mundo atual é difícil encontrar quem queira ouvir e não apenas falar.

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