domingo, 30 de dezembro de 2012

A satisfação com migalhas leva ao comodismo


Quando comecei a trabalhar em área comercial, aprendi que um profissional de sucesso precisa ser ambicioso. Nada de se conformar com o mediano, de achar que uma vidinha tranquila seria o suficiente. E confesso que, por bastante tempo, eu não entendia a necessidade dessa tal ambição e chegava a confundir com ganância. A diferença entre as duas palavras sempre se deu pelos meios de conquista, pelo respeito pela ética e pelo seu valor social, mas mesmo assim eu ainda tinha algum receio de ser ambicioso demais. Até que um dia um amigo sexagenário me disse que a pior coisa que pode acontecer com alguém medíocre é ganhar um campeonato, porque a satisfação com migalhas leva ao comodismo. E isso me fez pensar.

Estamos em mais uma época de Ano Novo, período em que as pessoas costumam traçar metas para o ano vai começar. Desde que eu me lembro das festas de réveillon, lembro-me também de todos os planejamentos que as pessoas faziam para o futuro, principalmente aquelas que tiveram um ano velho não tão bem aproveitado. Refletindo, concluí que a necessidade de colocar metas de recuperação é mais latente do que o hábito de traçar novos objetivos para superar aqueles já alcançados. Numa rápida avaliação, percebo que também as minhas preces de ano novo sempre foram mais calorosas no final dos meus anos ruins do que naqueles em que tudo tinha dado certo e que o sucesso havia acontecido.

E agora, pensando nisso, chego a conclusão de que a nossa trajetória é (erroneamente) regida muito mais pelo quanto a vida nos pressiona do que pela arte de sonhar. No final dos anos de sucesso e bonança, nós assumimos uma identidade um tanto arrogante, daquela pessoa já bem resolvida, com o burro na sombra e que não depende nenhum pouco daquele momento para fazer o seu ano ser bom ou ruim. E é justamente neste momento que deixamos as coisas escaparem de nosso controle e voltarem a patamares anteriores. Deveríamos planejar o novo patamar, colocar objetivos ainda maiores e termos ainda mais ambição. Admirar uma conquista é muito importante e nos dá força para as próximas batalhas, mas precisamos entender como tirarmos proveito de um histórico de sucesso.

Drummond ironizava essa ideia de que somente na virada do ano é que podemos fazer novos planos. Ele dizia que “quem teve a ideia de dividir o tempo em fatias a transformá-las em anos foi um sujeito genial” e eu concordo que não deveria ser necessário mesmo, mas em alguns casos nós precisamos dessa alegoria do calendário para nos organizar. Acontece que somos bons para planejar a recuperação de um período de vacas magras, mas quando elas engordam, temos a tendência de simplesmente ficarmos satisfeitos achando que encontramos “pedra filosofal” e que daí pra frente tudo que tocarmos se transformará em ouro. Os elogios recebidos de todos e por todos os cantos nos fazem pensar assim e isso é um grande erro.

Neste ano de 2012 tivemos dois grandes exemplos de “queda pós sucesso” que vieram do futebol. Um deles foi a Portuguesa de Desportos, campeã da Série B e rebaixada no Paulistão e o outro foi justamente o vice-campeão Paulista, Guarani, que iniciou o segundo semestre disputando a Série B nacional e acabou rebaixado e hostilizado pelo seu torcedor. O destempero dessas duas equipes foi a falta de ambição: A Lusa disputou o Paulistão sem objetivos maiores e acabou no buraco, assim como o Guarani que foi para a Série B apenas para figurar e acabou como protagonista do fracasso. Como dizia o meu amigo, a pior coisa que pode acontecer com alguém medíocre é ganhar um campeonato, porque a satisfação com migalhas leva ao comodismo.

Por isso, tenha ambição e sempre planeje um sucesso ainda maior. Ainda que você não precise disso, que seja para ser mais útil aos outros.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Será que ele merece ganhar tanto?



Quem já não teve ao menos um pouquinho de inveja dos salários das celebridades? Quem nunca ficou indignado em saber que o astro do futebol ou o galã da novela recebe por mês aquilo que um trabalhador comum levaria a vida inteira para juntar? E sempre se pergunta: é justo esse cara ganhar o que ele ganha pra trabalhar se divertindo enquanto eu fico aqui camelando pra receber uns trocados? Antes de qualquer resposta, vale algumas reflexões.

No século XX, a população operária sempre teve dificuldades de entender arte como trabalho, isso porque foi um século que começou em meio à resistência de alguns ao fim da escravatura e, por outro lado, com a revolução cultural promovida pela Semana de Arte Moderna, em 1922. Naquele tempo, havia a sensação de alguns que arte não era trabalho, mas sim diversão remunerada. Isso acontecia porque as pessoas decifravam esta palavra por sua definição física, ou seja, como uma medida da “energia que é transferida pela aplicação da força, visando o deslocamento de algo”. Entretanto, quando pesquisamos seu significado pelo ponto de vista social, concluímos que é qualquer coisa honesta, capaz de gerar algum tipo de “energia que desloque a economia em benefício coletivo”.

Daí por diante podemos já começar a pensar que, se o ator da novela é capaz de deslocar milhares de pessoas para a frente da televisão num determinado horário e que, sua empregadora consegue vender cotas de patrocínio que, para ela geram receita... é justo que repasse parte deste lucro para manter seu funcionário fidelizado. Se o jogador de futebol atrai torcedores ao estádio, os influencia a comprarem camisas do time, a acompanharem noticiários e consumirem a publicidade inserida nos veículos de comunicação envolvidos, é natural que este seja remunerado de forma diferente que os outros que não tem a mesma repercussão. O problema é que alguns medem o valor de um atleta pelo quanto ele joga bem, enquanto que o salário normalmente é calculado pelo quando ele rende ao clube.

Explicando melhor: quando uma empresa convencional abre uma vaga para assistente administrativo e pede curriculuns com pretensão salarial, receberá diversos pedidos distintos. Enquanto alguns pedirão algo muito próximo da base, outros se manifestarão com valores bem acima do normal. Uns querem ser chamados para a entrevista e não gostariam de correr o risco de serem cortados por pretensões altas enquanto outros entendem que pedidas baixas o desvalorizariam, fazendo inclusive que sejam deixados para trás. Os métodos de calcular a intenção de ganho que poderiam ser ainda mais distintos, na maioria das vezes assume um critério meramente doméstico: o candidato soma suas contas do mês e estabelece isso como pretensão salarial.

Se o candidato quer ser competitivo, precisa basear-se em outros fatores e não em sua simples vontade para definir tais planos. O salário ou remuneração de um profissional tem seu cálculo muito mais baseado na lei da escassez do que naquilo que ele “acha” que vale. A lei da oferta e da procura é quem realmente define quem merece ganhar mais ou não (isso vale apenas para as empresas privadas, já que empresas públicas tem legislação trabalhista diferente). Se há no mercado ofertas de emprego DISPONÍVEIS com salário mais alto, então você poderia sim pedir um valor maior. Mas se não há ninguém te oferecendo nada melhor, isso significa que você deve buscar nivelamento, ao menos por enquanto... ou oferecer um diferencial profissional que justifique a pedida. A existência de pessoas com remunerações melhores do que a sua não significa que alguém estará disposto a te pagar isso também, pois depende de avaliar o que o outro faz de diferente para merecer aquilo. Ele deve fazer algo, ainda que seja no marketing pessoal.

Ao entender que, para merecer um determinado salário, o profissional precisa gerar para a sua organização o suficiente para que ela o pague e ainda tenha lucro, este facilita as coisas. Muitas vezes a empresa tem bastante lucro, mas aquele funcionário em si gera muito pouco, porque ainda está aprendendo. Existem duas formas de gerar lucro para a empresa e se tornar um profissional importante: A primeira é de forma direta, que pode ser vendendo seu produto ou operando a área técnica de forma diferenciada (algo que outros não saibam fazer tão bem). A segunda é de forma indireta, dando suporte aos demais a ponto de seu trabalho facilitar a vida dos que geram lucro direto.

No caso dos maiores salários do mundo, basta avaliar o quanto eles geram de lucro para suas organizações. E podem ter certeza que estas organizações avaliam.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O meu "Anjo da Guarda" se disfarçou de Velhinha.


Tudo aconteceu quando eu estava prestes a completar 21 anos. Até então eu era Repórter Fotográfico de um Jornal da Região, mas como havia acompanhado um movimento de greve, acabei demitido. Já havia mais de 8 meses que eu não tinha trabalho e apenas fazia alguns servicinhos aqui ou ali para ganhar uns trocados. Confesso que já me sentia um tanto inútil e minha auto-estima estava enfraquecida.

Vi um anúncio no jornal no domingo e a curiosidade venceu o medo que eu tinha de coisas novas. Na segunda-feira logo cedo eu fui até o local indicado e fiquei do outro lado da avenida observando o ambiente. Percebi que era uma escola de inglês, o que me agradou, mas tinha um monte de gente de gravata, entrando e saindo. Gravata era uma coisa que eu não estava habituado a usar e nem muito disposto a me habituar. Fiquei na dúvida se entrava ou não, mas já que estava lá, resolvi me apresentar. Uma recepcionista motivada me atendeu e pediu para eu preencher uma ficha curriculum. Aguardei por vários minutos e fui atendido por uma mulher muito bem vestida e posicionada que, embora tivesse reclamado da forma com que eu estava vestido, me selecionou para um tal “processo seletivo” que se iniciaria no dia seguinte, mas já avisando que eu precisaria usar traje social.

Acordei cedo na terça-feira e fui até a casa de um primo pedir roupas emprestadas. Embora ele tivesse uma infinidade de gravatas, eu escolhi uma de crochê (ridícula). Peguei uma camisa e um sapato e me dirigi até o local do treinamento. Na verdade eu achava que estava ótimo, afinal nem sabia pra que essa "frescura" de usar gravata já no treinamento. Os dias se passaram, alguns colegas desistiam, outros eram cortados e eu permanecia lá, com minha gravatinha feia, mas firme num treinamento que buscava contratar pessoas para a área comercial da empresa. No grupo, os candidatos éramos eu e mais 8 pessoas, mas somente 4 de nós chegamos ao último dia (eu, Patrícia, Cristiane e Inês).

Na sexta-feira a tarde houve a dinâmica final e o desafio foi algo bem diferente (somente fui ver coisas parecidas no programa “O Aprendiz”, com o Justus). Deram-nos a meta de fazer 20 pesquisas abordando pessoas na rua ou fazer de cara 1 matrícula para o curso, isso até às 8 horas da segunda-feira. Como eu não tinha mais dinheiro, fui para a minha casa a pé e pensando numa distante solução. Eu já tinha feito pesquisas quando trabalhava no jornal, por isso optei por elas e no sábado de manhã me dirigi até o Centro da cidade para abordar as pessoas. No caminho, porém, encontrei um amigo de colégio, um cara muito folgado e sarrista, chamado Marcio B... Jr. Ele me perguntou pra que era aquela pasta e eu desconversei, pois tive vergonha de falar que estava fazendo pesquisa na rua. Me livrei dele rapidamente e continuei caminhando... até que duas horas se passaram e eu ainda não tinha tido coragem para fazer nem a primeira pesquisa. Me senti totalmente travado e envergonhado, vendo as pessoas passarem e desviarem da minha abordagem.

Neste momento eu desisti. Tomei a decisão de que aquilo não era para mim, portanto eu iria entregar minha pasta. Fui caminhando em direção a escola, me sentindo um otário, afinal "Que desculpa eu daria?". Eu queria, ao menos ter feito uma pesquisa para dizer que não era por falta de conseguir que eu estava desistindo. Foi quando encontrei mais um amigo, o Marcel. Como ele era um cara mais legal que o outro, pedi que me respondesse a pesquisa, o que ele concordou em fazer. Foi aí que meu "anjo da guarda" fez a parte dele...

Uma senhora de mais de 60 anos, baixinha e toda bem vestida se aproximou e me perguntou: "Moço, você está fazendo aquela pesquisa da escola de inglês?" Senti vontade dizer que não, mas como o Marcel estava ali comigo, no pude mentir. Confirmei e ela reclamou que havia sido pesquisada já havia alguns dias e ninguém tinha entrado em contato para falar do curso. Imediatamente eu parei a pesquisa com meu amigo, pedi que ele aguardasse um pouquinho, peguei outra folha, me virei para a velhinha e conversei com ela, voltando somente depois ao Marcel. Esta senhora, que eu não me lembro o nome, não tinha telefone (coisa comum em 1993). Sendo assim, marquei uma entrevista com ela, em sua casa, na terça-feira seguinte.

Como eu tinha essa entrevista marcada, isso me motivou e eu não entreguei a pasta. Domingo fui para a casa de minha namorada e a entrevistei. Ela foi aprovada, queria fazer o curso, mas só teria o pagamento inicial na segunda-feira pela manhã. Mas me emprestou R$ 10,00 para eu ir "trabalhar" no dia seguinte.

Na reunião da segunda-feira, às 8 horas, eu passei vergonha, pois não tinha a matrícula e nem a quantidade mínima de pesquisas. Para piorar, as 3 meninas que treinaram junto comigo haviam matriculado amigos e passaram toda a reunião me zoando a cabeça, dizendo que o lado feminino da equipe era superior. Eu saí dalí muito irritado e, me sentindo desafiado, fui até a casa da minha namorada buscar o pagamento combinado pela sua matrícula. Com o cheque na mão, voltei para a empresa e "esfreguei na cara" de todo mundo, dizendo que ali existia um cara macho, de fibra e que não perderia para 3 meninas bonitinhas. Durante o resto do dia fiquei aprendendo a marcar entrevistas por telefone. Agendei com uma senhora para o mesmo dia, às 9 da noite, com o Marcel (da pesquisa) para o dia seguinte às 10 horas e, já tinha a da velhinha, às 14 horas, também da terça.

Fui para a entrevista da noite e virei mais uma. No dia seguinte eu era quem zoava a cabeça do lado cor-de-rosa da sala, pois agora tinha 2 matriculas enquanto cada uma delas permanecia com uma só. Fechei outra com o Marcel e mais uma com um amigo dele (Jorge) que estava junto. Eu sabia que a velhinha seria matriculada e, depois do almoço já me dirigi até a casa dela com a certeza de mais um sucesso. Ao chegar, descobri que o endereço não existia... Voltei intrigado, afinal, como aquela "velha coroca" poderia ter me passado endereço errado? Com que objetivo alguém faria isso?  

Fiquei meio desmotivado com isso e passei a quarta-feira em branco. Mas aí veio a reunião da quinta e nesse dia virei mais duas. No sábado, matriculei outro amigo meu (Rui) juntamente com sua irmã e sua namorada. No domingo ainda virei mais uma na única entrevista que eu tinha. Terminei a semana com 10 matrículas (faltou 1 para eu ser o recordista de primeira semana naquela regional) e 5 meses depois eu me tornaria gerente, com direito salário maior, fazer cursos, contratar e treinar pessoas. No primeiro treinamento que eu ministrei, contei essa história. Um dos participantes me disse algo que até então eu nem tinha pensado: "a velhinha era seu anjo da guarda, disfarçado, que te impediu de desistir" - disse ele. E de fato foi, pois a carreira que desenvolvi depois disso hoje já dura 19 anos.

A propósito, este rapaz que fez essa observação se chamava Evandro e foi o primeiro cara do meu primeiro treinamento a matricular. Querem saber qual o nome do aluno da primeira matricula do Evandro? Marcio B... Jr (o amigo folgado que eu citei no início desta história). Pois é! Se eu não tivesse sido besta, poderia ter feito as 11 matrículas na minha primeira semana.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Linguagens Corporativas...

Num dia desses, ao ouvir a conversa entre dois jovens colegas de trabalho, me coloquei a pensar se eles imaginam o sentido de cada uma das frases por eles utilizadas. Entendam que papo maluco:

- Vai na festa da firma, hoje?
- É hoje? Nem tinha caído minha ficha...
- Lógico que é hoje, não vai queimar o filme com o patrão!
- Beleza! Tô lá mais tarde, ainda mais que é na faixa.
- Lógico, mano! Hoje vai ser nóis na fita!
- No fim da tarde, você bate um fio pra nós combinarmos.
- Não tenho seu fone, me passa o numero...
- Anota aí: é 9542-8866.
- Vou discar aí, mas nem atende. É só pra você gravar.
- Mas é certeza que você vai também? Não vai ficar vendo o jogo do seu time?
- Não, fica frio, depois eu vejo o tape.
- Os caras não falam de outra coisa, a não ser da festa...
- Pois é, parece que não vira o disco, meu!
- Falou aí, então! Já ta na minha caderneta...
- Falou! Té mais tarde!

Agora vamos avaliar se eles sabem a origem da gírias que eles mesmos usam:

Cair a ficha: Até a década de 80, antes de existirem celulares, os “orelhões” estavam espalhados pela cidade. Precedente ainda do sistema de cartões magnéticos, os telefones públicos eram habilitados por fichas telefônicas, um pequeno objeto metálico parecido com uma moeda. Quando alguém fazia uma ligação, colocava uma ficha a máquina e quando o outro atendia, a ficha caída para dentro do equipamento, dando origem à expressão “cair a ficha” sempre que a comunicação era estabelecida. Não existem mais telefones que usam fichas.

Queimar o filme: Também há pouco tempo atrás, as câmeras fotográficas usavam um sistema de filmes, que precisavam ser revelados quimicamente e não podiam ser expostos a luz. Quando um fotógrafo amador retirava o filme da câmera, este corria grande risco de deixá-lo exposto na claridade e velá-lo (ou queimá-lo) e, conseqüentemente, inutilizá-lo, queimando as imagens nele contidas. Então, queimar o filme significa perder qualquer tipo de moral com alguém, ou queimar sua imagem. Não se fotografa mais com filmes depois da popularização das imagens digitais.

Na faixa: Era uma forma de obter benefícios, utilizada por praticantes de artes marciais, que ao exibirem sua faixa preta, não precisavam mais pagar por determinados serviços na comunidade, como entrada em eventos e o direito de consumir bebidas. Assim a expressão ganhou o mundo. Hoje não se faz mais questão da faixa para que alguém possa receber favores.

Na fita: A expressão ‘’é nóis na fita”, independente da conjugação incorreta, fazia referência as antigas fitas de VHS, com as quais eram gravados vídeos amadores. Estar na fita significava que estava em evidência, aparecendo no vídeo. Obs: Quase não se grava mais filmes em vídeo.

Bater um fio: Também relacionado ao tempo em que não existiam telefones móveis e nem redes wireless, quando a maioria das comunicações eram feitas via cabo. Poucos jovens e adolescentes se comunicam ainda por telefones com fio.

Discar: Os telefones antigos eram fabricados com sistema de manivela, onde a quantidade de giros da mesma, obedecendo determinado intervalo, correspondia ao número a ser chamado. Depois de um tempo, a manivela foi substituída pelo disco, que trazia os 10 algarismos e o usuário simplesmente girava o disco desde o número acionado até a trava, dando origem ao verbo “discar”. Quase não existem mais telefones com sistema de discos.

Tape: Nada mais é do que o termo em inglês que corresponde a uma fita. Na época em que surgiram as TVs, toda a programação era ao vivo. Ao longo dos anos, foi inventado o sistema de gravação de imagens, que permitia que um evento fosse transmitido em forma de vídeo-tape, dando origem a esta forma de se referir a algo que é retransmitido pelas TV em forma de repetição. Hoje não se usa mais fitas para esse fim, mas sim as gravações digitais. 

Virar o disco: Até a década de 80, os discos de vinil eram a melhor mídia existente para se armazenar músicas em ambiente doméstico. Os discos tinham cerca de 30 cm de raio e possuia microssulcos ou ranhuras que, com o contato de uma agulha sensível ao toque, reproduzia de forma mecânica os sons, que eram imediatamente ampliados por um sistema eletrônico. Devido a sua sensibilidade, qualquer risco fazia a agulha pular seu curso normal, o que era conhecido como “disco enguiçado” e gerou a expressão usada para se referir a alguém que diz sempre a mesma coisa. Quando a agulha percorria todo o caminho do espiral, o usuário virava o disco, para que fosse tocado o outro lado, geralmente com outras músicas, dando origem a manifestação “vira o disco” para os que são muito repetitivos. Hoje os discos de vinil servem apenas para colecionadores.

Caderneta: Numa época onde não existiam computadores e nem comandas eletrônicas, a caderneta fazia estas funções. A maioria dos comércios de bairro ou de pequenas cidades usavam este recurso para anotar as compras dos clientes que, pagavam no final do mês. Com o tempo, elas foram substituídas por notebooks e tablets, ou mesmo por complexos softweres comerciais. Poucos estabelecimentos familiares ainda usam a caderneta.

E você? Usa expressões antigas sem saber de onde elas surgiram? Não se preocupe... todos fazemos isso.

Mas agora, ao menos, já caiu a ficha!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Dinheiro das férias no bolso é vendaval


Tem sido comum este blog criticar a legislação trabalhista brasileira. Isto acontece porque este cronista classifica como absurdos a quantidade de regras ultrapassadas ou populistas inseridas na CLT. Não estou aqui defendendo os interesses nem de empregadores e nem de empregados, mas sim de ambos, pois há situações onde nenhuma parte se beneficia. Um exemplo disso é o artigo 145 da CLT, que prevê o pagamento antecipado do salário do mês em que o funcionário goza suas férias, ou seja, ele recebe o salário “do mês que vem” e, invariavelmente o gasta todo, achando que ao voltar do descanso terá salário novamente.

Devido a nossa cultura e ao recente crescimento da economia, a sociedade brasileira é, por si só, consumista. Hoje consome antecipadamente através dos financiamentos e cartões de crédito, mas esse hábito já é antigo, desde o tempo das cadernetas, carnês e crediários. Isso explica o famoso trecho da música “Pecado Capital”, de Paulinho Da Viola, onde ouvia-se “dinheiro na mão é vendaval”, como uma frase a explicar o fato de costumeiramente não haver sobra de recursos no bolso de um trabalhador. Todos os educadores financeiros ensinam o cidadão comum a fazer poupanças, a gastar somente o que pode gastar e a consumir somente o que realmente precisa consumir... mas explicar isso para as mulheres qualquer pessoa em frente a uma loja de sapatos é totalmente impossível...

Reflitam, portanto, o que acontece quando uma pessoa no perfil comum (consumista) recebe as férias... imaginem um trabalhador que tem como data de pagamento o quinto dia útil e teve suas férias marcadas para o mês de janeiro: dois dias antes de se ausentar, ele vê ser depositado em sua conta um salário inteiro e mais 1/3 de bônus, além do salário do mês já trabalhado que entrará depois de uma semana. Este cidadão terá em mãos mais de 2,3 vezes o valor que está acostumado a ter para passar o mês. Com raras exceções, neste momento ele terá a sensação de estar “rico”, irá pagar cerveja para os colegas de trabalho, comprar várias roupas para a viagem que está planejada e ainda aproveitar o que sobra equipando o carro com “aquela roda aro 20’”. Vai passear, gastar, rodar, se divertir e, 30 dias depois, voltar a trabalhar... cansado, mas feliz e contente, já pensando nas férias do ano que vem.

O problema é que no quinto dia útil de fevereiro o seu holerite virá zerado e não haverá nenhum ser humano capaz de explicar ao cidadão que ele não terá salário simplesmente porque não trabalhou no mês anterior. "Mas eu estava de férias", dirá o empregado e, o patrão ou gerente de RH tentará mostrar que ele recebeu este dinheiro antecipadamente e que deveria ter guardado, feito uma poupança para o período atual, ouvindo de volta que ninguém lhe explicou isso... e as vezes até foi explicado sim, mas o cara estava tão afoito por ver tanto dinheiro em seu extrato de uma só vez que nem prestou atenção no que o foi falado...

Muitos usam o dinheiro das férias para pagar contas, quitar dívidas, consertar o telhado, trocar os pneus do carro, de modo que não sobre nenhuma reserva. O sentido de pagar-se antecipadamente o salário do mês das férias dos funcionários, segundo o meio jurídico, é dar a oportunidade ao funcionário de se planejar, ou mesmo “curtir uma viagem”  justamente com esse dinheiro. Acontece que ninguém pensa na volta e é popular (ou populista) legislar obrigando a empresa antecipar qualquer que seja o valor devido, sem preocupar-se porém, se quem o recebe terá preparo para se valer positivamente disso.

Mas para tranquilizar a galera, se der zebra, não esquenta a cabeça: pede um vale ou faz um empréstimo no banco... e entra no efeito “bola de neve”, onde a cada mês a gente se afoga um pouquinho mais, sendo esta dívida solucionada só no ano que vem, quando usa-se novamente o dinheiro das férias para acertar consertar a vida.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Em tempos de bonança, bom ambiente de trabalho vale como bônus


Conversando com um colega, gerente de restaurante, este me relatava o caso de um de seus garçons que havia trocado de emprego por uma diferença salarial de menos de R$ 100,00. Indignado, o gerente dizia que não se conformava em ver o seu antigo funcionário, aquele que ele cuidou e ensinou, trabalhando no comércio em frente e, de vez em quando soltando alguns sorrisinhos de “canto de boca”, como querendo dizer que está melhor agora. Ainda segundo ele, a indignação é maior porque o rapaz nem se quer levou em consideração tudo o que já foi proporcionado para ele nos 5 anos em que estiveram juntos.

Ao ouvir esta história, me lembrei do caso recente do jogador de futebol PH Ganso, que deixou o Santos Futebol Clube para jogar no rival São Paulo. Ganso passou cerca de um ano negociando com o seu antigo clube as condições de trabalho, salário, carreira e, mesmo tendo ofertas que poderiam ser consideradas boas, resolveu sair. Sua ida para o Morumbi supostamente teve muito mais relação com o ambiente que este vivia do que com as condições financeiras ou ferramentas de trabalho, tanto que deixou isso claro em alguns momentos. E assim como ele saiu por uma proposta salarial não muito diferente, o seu colega de Clube Neymar permanece atuando feliz mesmo tendo propostas salariais bem maiores de times ingleses e espanhóis, certamente por serem pessoas diferentes.

Explicar a similaridade entre o caso dos dois jogadores de futebol e do garçom não é muito difícil e nem exige pensar tanto assim, basta apenas que entendamos que não é somente o valor do salário pago que faz uma pessoa trocar de trabalho. O ambiente profissional, a amizade com os colegas de equipe e o grau de segurança e confiança que enxerga nos chefes e patrões pode ter um peso muito maior do que o do holerite. É obvio também que quando a diferença salarial é muito grande, o profissional tende a ser seduzido pelo dinheiro, o que de alguma maneira não está errado, mas em casos de diferenças menores, o bom ambiente de trabalho e expectativa de crescimento fazem o balanço final.

O ambiente de trabalho proporciona um prejuízo ou dividendo especial para o trabalhador, coisa que este somente sente quando sai da empresa e vai pra casa: a felicidade. É muito comum que as pessoas que se “estressam” no trabalho descontem este sentimento em seus amigos e familiares, assim como também é comum que os profissionais realizados transmitam aos seus a mesma honra de fazerem parte daquele time. Se o cidadão passa as horas de folga em paz com a família, certamente terá mais vínculos com aquela que proporciona tais condições, enquanto que outros, ao chegarem no lar, declaram abertamente que trocariam de trabalho mesmo que fosse para terem a mesma remuneração.

Ao meu colega do restaurante, eu sugeriria que observasse o clima que foi criado entre as pessoas na empresa e avaliasse se o que a sua empresa proporciona é competitivo em relação ao que oferecem os outros. Mesmo considerando que, em alguns casos, o funcionário troca uma empresa pela outra e quando chega no emprego novo encontra situações iguais ou piores, ainda assim ele arrisca porque o primeiro sentimento que tem é o de demonstrar sua indignação com alguma coisa, de sair e deixar de se submeter ao que vinha vivendo... o sorriso maroto antes narrado é a prova disso. Em tempos de bonança e grande oferta de empregos, com o mercado de salários em equilíbrio como vemos atualmente, o bom ambiente de trabalho vale como bônus e talvez tenha sido isso que fez o Neymar ficar... ou o PH Ganso sair.