sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Dinheiro das férias no bolso é vendaval


Tem sido comum este blog criticar a legislação trabalhista brasileira. Isto acontece porque este cronista classifica como absurdos a quantidade de regras ultrapassadas ou populistas inseridas na CLT. Não estou aqui defendendo os interesses nem de empregadores e nem de empregados, mas sim de ambos, pois há situações onde nenhuma parte se beneficia. Um exemplo disso é o artigo 145 da CLT, que prevê o pagamento antecipado do salário do mês em que o funcionário goza suas férias, ou seja, ele recebe o salário “do mês que vem” e, invariavelmente o gasta todo, achando que ao voltar do descanso terá salário novamente.

Devido a nossa cultura e ao recente crescimento da economia, a sociedade brasileira é, por si só, consumista. Hoje consome antecipadamente através dos financiamentos e cartões de crédito, mas esse hábito já é antigo, desde o tempo das cadernetas, carnês e crediários. Isso explica o famoso trecho da música “Pecado Capital”, de Paulinho Da Viola, onde ouvia-se “dinheiro na mão é vendaval”, como uma frase a explicar o fato de costumeiramente não haver sobra de recursos no bolso de um trabalhador. Todos os educadores financeiros ensinam o cidadão comum a fazer poupanças, a gastar somente o que pode gastar e a consumir somente o que realmente precisa consumir... mas explicar isso para as mulheres qualquer pessoa em frente a uma loja de sapatos é totalmente impossível...

Reflitam, portanto, o que acontece quando uma pessoa no perfil comum (consumista) recebe as férias... imaginem um trabalhador que tem como data de pagamento o quinto dia útil e teve suas férias marcadas para o mês de janeiro: dois dias antes de se ausentar, ele vê ser depositado em sua conta um salário inteiro e mais 1/3 de bônus, além do salário do mês já trabalhado que entrará depois de uma semana. Este cidadão terá em mãos mais de 2,3 vezes o valor que está acostumado a ter para passar o mês. Com raras exceções, neste momento ele terá a sensação de estar “rico”, irá pagar cerveja para os colegas de trabalho, comprar várias roupas para a viagem que está planejada e ainda aproveitar o que sobra equipando o carro com “aquela roda aro 20’”. Vai passear, gastar, rodar, se divertir e, 30 dias depois, voltar a trabalhar... cansado, mas feliz e contente, já pensando nas férias do ano que vem.

O problema é que no quinto dia útil de fevereiro o seu holerite virá zerado e não haverá nenhum ser humano capaz de explicar ao cidadão que ele não terá salário simplesmente porque não trabalhou no mês anterior. "Mas eu estava de férias", dirá o empregado e, o patrão ou gerente de RH tentará mostrar que ele recebeu este dinheiro antecipadamente e que deveria ter guardado, feito uma poupança para o período atual, ouvindo de volta que ninguém lhe explicou isso... e as vezes até foi explicado sim, mas o cara estava tão afoito por ver tanto dinheiro em seu extrato de uma só vez que nem prestou atenção no que o foi falado...

Muitos usam o dinheiro das férias para pagar contas, quitar dívidas, consertar o telhado, trocar os pneus do carro, de modo que não sobre nenhuma reserva. O sentido de pagar-se antecipadamente o salário do mês das férias dos funcionários, segundo o meio jurídico, é dar a oportunidade ao funcionário de se planejar, ou mesmo “curtir uma viagem”  justamente com esse dinheiro. Acontece que ninguém pensa na volta e é popular (ou populista) legislar obrigando a empresa antecipar qualquer que seja o valor devido, sem preocupar-se porém, se quem o recebe terá preparo para se valer positivamente disso.

Mas para tranquilizar a galera, se der zebra, não esquenta a cabeça: pede um vale ou faz um empréstimo no banco... e entra no efeito “bola de neve”, onde a cada mês a gente se afoga um pouquinho mais, sendo esta dívida solucionada só no ano que vem, quando usa-se novamente o dinheiro das férias para acertar consertar a vida.

Um comentário:

  1. Qdo trabalhei em DEpto Pessoal, a maior dificuldade era explicar o pagamento antecipado das ferias.
    Ninguem entendia, ou melhor aceitava rs

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