sexta-feira, 29 de março de 2013

As aventuras de Sofrenildo e Motivaldo


Era uma vez, na empresa, dois colegas que faziam funções muito parecidas. Eles tinham sido contratados na mesma época, pelo mesmo gerente e receberam treinamentos similares. Ambos eram talentosos e tinham boa formação, vestiam-se muito bem e única diferença é que um deles estava locado na unidade sul da cidade, próximo as faculdades e outro na unidade norte, zona comercial e industrial, perto da rodovia. Depois de algum tempo, os dois já eram tratados pelos seus nomes. Nildo e Valdo seguramente eram líderes e puxavam fila. Acontece que a equipe supervisionada pelo primeiro tinha resultados altamente inferiores aos do segundo. Os números se distanciavam tanto, que após o primeiro semestre, Nildo reclamou tanto da região Sul da cidade e das pessoas que trabalhavam lá que convenceu a diretoria a troca-lo de unidade, dizendo que o seu colega Valdo apenas estava na hora certa e no lugar certo.

O primeiro mês após a troca parecia confirmar a tese que a filial do Sul sofria com desafios maiores. Nildo superou o colega em quase 30% e cantava seu sucesso dizendo que havia passado o semestre inteiro perdendo tempo em uma região complicada. Valdo, por sua vez, apenas aceitou a transferência e continuou trabalhando, ciente de sua responsabilidade. Desenvolveu algumas reuniões em grupo e se comprometeu com sua nova equipe em trabalhar a mudança de conceitos. Enquanto isso, Nildo se indispôs com um dos colaboradores e o demitiu, dizendo que este não o havia aceitado como líder. E foi aí que uma curiosidade aconteceu: após a troca dos supervisores, as duas unidades passaram a ter um turn-over até então não experimentado. Alguns integrantes de ambas as equipes pediram demissão e novos empregados foram contratados, reformando então quase todo o plantel. 

Nas entrevistas de desligamento, ficava óbvio a incompatibilidade de ideias com os novos chefes. A equipe do Sul dizia que Valdo era muito exigente, que cobrava demais e nunca aceitava um não como resposta. Do Norte, os demissionários reclamavam que o Nildo não assumia responsabilidades, sempre culpava os outros pelo que saía errado e deixava o ambiente sem motivação. As novas contratações eram feitas pelos próprios supervisores e depois de algum tempo, a unidade Sul iniciava o dia com musica de bom dia tocada no violão por um dos funcionários e gincana para estimular os resultados. Na unidade Norte as pessoas chegavam carrancudas e somente começavam trabalhar perto da hora do almoço, afinal diziam que ninguém tem tanto pique logo cedo pra trabalhar assim como os fanáticos da outra loja.

No final do ano notou-se que a equipe do supervisor Valdo, em qualquer das duas unidades se mantinha muito mais produtiva do que a do colega Nildo e, mesmo quando tiveram que demitir, as novas contratações traziam pessoas com o mesmo perfil de quem contratava. Nildo ficou conhecido pelas suas lamentações continuas, pelas desculpas que dava ao apresentar resultados e ganhou o apelido de "Sofrenildo". Na outra filial, Valdo era festejado como um excelente conselheiro, sempre pronto para resolver qualquer situação e por conta disso era chamado de "Motivaldo". Ficou claro que o problema não era e nunca havia sido a localização das unidades e nem a equipe contratada, mas sim a postura do líder e a forma com que cada um lidava com os seus desafios. 

Valdo lidou melhor com todas as situações e Nildo novamente cercou-se de pessoas lamentadoras e reclamadoras. E por que isso acontece sempre? O General chinês Sun Tzu, que viveu  500 anos antes de Cristo explicaria isso dizendo que "a tropa sempre é reflexo de seu comandante". É óbvio que Motivaldo e Sofrenildo são personagens criados exclusivamente para esta crônica, mas com outros nomes eles podem ser encontrados na maioria das empresas. Preste atenção e identifique quem está perto de você, a quem você está seguindo e, principalmente, com qual dos dois você mais se parece. A partir disto, decida seus próximos passos e comportamento.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Uma breve história de superação



Hoje, no facebook, li uma frase bastante inspiradora, publicada por um amigo. Conheci o Marcelo em 1994 e depois de certo tempo trabalhando na mesma empresa, nós perdemos o contato e somente nos reencontramos em 2010 na Feira de Franquias da ABF, em São Paulo. Hoje, sei lá porque, ele me marcou numa foto com os seguintes dizeres: “O que define seu destino não são as suas condições e sim as suas decisões”. Isso fez minha memória voltar ao ano de 2001. Nessa época, eu e o Halaouani estávamos abrindo a nossa primeira empresa, situada na cidade de Campinas. Eu havia acabado de me desligar do emprego anterior e me meti a empreender, porém tinha pouquíssimo dinheiro e fazer sacrifícios abrindo mão de luxos já conquistados era algo muito normal... as vezes até encarado como diversão. Seis meses antes, eu morava num apartamento alugado num bairro nobre e vivia boas condições financeiras. Diante de uma mudança repentina na empresa em que eu trabalhava, tomei a decisão de me desligar para abrir o meu negócio próprio.

Nesse momento, minha fonte de renda deixou de existir e, diante dos novos investimentos, não tinha mais condições financeiras de manter o custo do aluguel do apartamento. Foi quando tomei a decisão de morar temporariamente no próprio escritório. Nada que um colchãozinho escondido no armário não resolvesse, porém, entendendo que isso poderia pegar muito mal se fosse exposto aos clientes e funcionários, criei uma estratégia para ninguém perceber. Eu dormia na minha própria sala de trabalho, acordava às 6 horas da manhã, me arrumava e saía pra rua... tomava um cafezinho na padaria e voltava por as 7 e meia, um pouco antes do horário de abrir, como se estivesse vindo direto de casa. Isso deu certo por 4 meses, até que um dia uma das funcionárias pegou uma carona diferente e chegou bem cedo, antes da minha saída... ao ver a garota lá na frente me olhando com cara de “ué”, eu somente tive a ideia de dizer que se ela havia chegado cedo, eu tinha madrugado e chegado mais cedo ainda... foi quando decidi que era hora de achar um lugar pra morar.

Pouco tempo depois eu já estava instalado em um apartamento bem mobiliado e prestes a trocar de carro. Para quem lê essa historinha aqui, parece ter sido fácil. Mas os momentos de desespero a cada fechamento de caixa, a cada final de dia quando notávamos as contas chegando e o dinheiro acabando, esses não são mensurados pelos leitores. É bem verdade, também, que parte da habilidade que criei como empresário se originou nessa época, diante dos desafios. A capacidade de acreditar que tudo vai dar certo quando nada caminha pra isso, definitivamente não é uma habilidade nata, mas sim adquirida quando não há outra saída a não ser acreditar. Porém, o conforto do sucesso também acomoda as pessoas e as faz perder características guerreiras que tinha outrora. É como um motorista experiente que se julga tão bom a ponto de deixar de prestar atenção nos detalhes e isso acontece também com o empresário tão elogiado e conceituado que deixa de lado as medidas de segurança achando que já tem faro para o negócio.

Há vezes em que ter todas as condições favoráveis inibe a nossa capacidade de decidir. Em outras, a decisão tomada é o que gera as condições. Mas esperar o cenário ideal para poder somente então arriscar é estratégia válida apenas para o Capitão do navio. No empreendedorismo, o que vale mesmo é criar o ambiente do qual se quer desfrutar, porém tomando todos os cuidados para que ondas mais bravas ou uma instabilidade repentina não o faça naufragar com sua embarcação.

domingo, 10 de março de 2013

Como lidar com a sensação de perdas?


Um dos maiores desafios do mundo capitalista é lidar com a sensação de perdas. Desde perdas afetivas, como a de um namorado ou namorada, a perda da juventude com o passar dos anos ou mesmo as perdas materiais, como a necessidade de vender um bem ou patrimônio para pagar as contas. Este sentimento de regressão é responsável por boa parte das quedas de produtividade dos atletas, dos empresários e dos profissionais de área comercial. Em áreas onde a competitividade é constante, controlada por números e com medidas bem definidas, as pessoas são continuamente estimuladas a perseguirem metas maiores. Nestes casos, a oscilação de resultados pode levar algumas pessoas até ao estado depressivo.

Lidar com isso de forma inteligente pode ser o que determina a estabilidade de uns, volta por cima de outros ou a derrocada total daqueles que mantém o coração duro. Crises acontecem por diversos motivos, que podem ser pessoais e internas ou criadas por fatores “extra campo”, as vezes até fora do próprio controle e que influenciem no ramo de atuação. Elas existirão de tempos em tempos e precisam ser superadas com muita força de vontade e criatividade. Em geral, quanto mais o profissional em crise se lamenta pela perda, mais tempo ele vai seguir em queda. É como aquele colega que tem um carro financiado cujas parcelas estão atrasadas e o veículo sujeito a busca e apreensão... quanto antes o devedor se livrar do bem, antes se recuperará do problema financeiro. Neste último exemplo, na maioria das vezes o devedor luta durante meses pagando parcelas atrasadas com juros altos até se concientizar e devolver o carro ou perdê-lo por força da justiça.

Ontem eu atendi um garoto de dezesseis anos que nos procurou por telefone para saber de nosso curso de inglês. Como ele tem pouca idade, o convidei a conversar comigo na presença dos seus responsáveis e foi quando ele passou a ligação ao seu pai para falar comigo. O homem me disse que gostaria muito de nos conhecer devido a nossa fama de seriedade, mas que estava impossibilitado de sair de casa, me convidando então a ir até lá. Como era num sábado, marquei para o final do horário e depois de sair da empresa, fui até a residência daquela família, onde encontrei um garoto muito inteligente e um pai muito simpático e determinado a proporcionar para o filho o aprendizado do novo idioma. Porém, a conversa aconteceu ao lado de uma cama com um cidadão acidentado e sem movimentos.

Respeitar profissionalmente as pessoas que vivem momento de crise é muito importante. Há situações em que percebemos os vitoriosos sarreando e desdenhando dos mal colocados, mas o que normalmente os campeões não percebem é que precisamos ter cuidado sempre com as voltas da vida, evitando assim a arrogância e a prepotência, pois com um pequeno vacilo, um profissional forte e motivado pode cair num problema grave. É assim também no caso da saúde, uma pessoa atlética e saudável pode descobrir uma doença de um dia para o outro ou pode sofrer um acidente que de repente muda a sua vida. Dirigir com cautela, ter boa alimentação ou manter-se atento e disciplinado no trabalho são cuidados que podem diminuir os riscos, tentando assim evitar os tais sustos. Mas a onipotência... essa definitivamente não existe aqui embaixo.

A grande lição de vida que eu tive ontem foi ver uma família lidando calmamente com uma situação altamente difícil, mas sem lamentações. Na saída, quando o garoto me acompanhou até a porta, ele me disse que seu pai já contabilizou os prejuízos físicos causados pelo acidente e não pensa mais nisso... que está mais preocupado agora em recuperar os movimentos da cintura para cima e poder ficar sentado em uma cadeira de rodas, o que já lhe seria uma enorme evolução. Pela nossa experiência profissional, percebemos que aqueles que não se desapegam dos bens perdidos tendem a não desapegar também dos sentimentos negativos que estimulam a fraqueza e a depressão. Então, para as pessoas fisicamente saudáveis cheias de lamentações, aí está um bom exemplo: pense no que você pode evoluir a partir do presente e use o passado apenas como fonte de aprendizado.

Conclusão: Desapegue!