sábado, 21 de setembro de 2013

O que você quer comigo?


Recentemente eu conversava com um amigo, que me contava da saga de sua filha adolescente, com dificuldades de acompanhar a pedida da escola onde estuda. Segundo o relato, a escola exige muito dos alunos porque tem como meta a aprovação destes na melhor universidade do país. Porém, alguns alunos e suas famílias podem não ter este mesmo objetivo. Eu disse a ele que esta, inicialmente, é uma meta comercial da escola... formar o aluno que passa em primeiro lugar no exame tal, na universidade tal... O objetivo da instituição, que posteriormente divulga outdoors com a foto do ex-aluno no momento do “trote”, pode ser válida se o aluno lá ingressou para isso, como é o caso dos alunos dos cursos preparatórios para concursos públicos ou para a OAB, mas seria um tanto exagerada para outros que não intencionam ser o melhor aluno da classe.

E embora a essa altura do texto, alguns já estejam me criticando, vou trazer mais um exemplo: depois de 20 anos trabalhando em escolas de idiomas, percebi que o curso mais renomado, criterioso, com o ensino da gramática bem estudada e fonética perfeita, pode não ser a melhor opção para aquele aluno que apenas quer se comunicar. Nesses casos, o perfeccionismo da escola não converge com o objetivo imediato do aluno, que além de perder anos num curso que não gosta, não criaria competência naquilo que realmente quer fazer. Por isso perguntamos para o futuro aluno sobre suas intenções de uso da língua, para que possamos oferecer a ele algo dentro daquilo que realmente o interessa. É a mesma coisa de um engenheiro que compra um carro sedã de luxo para visitar obras... além de caro, um carro baixo e sofisticado vai estragar com facilidade num ambiente de construções e não vai atender de forma completa o seu dono, pois não terá espaço adequado para transportar ferramentas e materiais.

- Qual é o seu objetivo com isso? Esta mesma pergunta, nós fazemos (ou deveríamos fazer) quando contratamos alguém para trabalhar em nossa empresa. Porém, já por hábito do mercado, o candidato tende a responder o que ele acha que o empresário quer ouvir. E lendo pela terceira vez o livro “O Monge e o Executivo”, de James C. Hunter, me deparei com uma situação curiosa, que me fez perguntar a uma colega o que ela acha da empresa onde ela trabalha. Na sua resposta, ela relatou a satisfação de fazer parte daquele grupo, mas que tinha algumas críticas ao chefe, que em determinados momentos, cobrava resultados e abria mão de pessoas boas simplesmente porque aquelas pessoas não concordavam com ele ou porque não tinham resultados tão expressivos.

Isso abre uma discussão interessante, porque o conceito de boa liderança dessa colega é muito parecido com o que eu tinha antes de ser líder. Eu vivia dizendo que “quando eu fosse gerente não faria as coisas desse jeito” e a minha principal crítica era que as empresas não pensavam nas pessoas, mas somente nos seus resultados. Hoje, depois de ter vivido momentos de prosperidade e de crise, aprendi que uma empresa que tem altos resultados à custa de pessoas infelizes e mal remuneradas, não terá a longevidade para se tornar grande porque não conseguirá mão de obra suficiente para isso, em longo prazo. Mas uma empresa que lucra mal, que tem resultados comerciais ruins e, ainda assim, paga altos salários a quem não consegue render, também acabará por fechar as portas.

Quando ingressamos numa empresa e falamos que queremos crescer e, para isso, temos que nos preparar para receber críticas e cobranças que nos façam mudar. Crescer não é ser a mesma pessoa para sempre... crescer é mudar. Mudar de tamanho, mudar os pensamentos, mudar a forma de encarar os problemas da vida. Isso não tem absolutamente nada a ver com a frase mais repetida pelos adolescentes em tempos de descoberta, que é: “Ser eu mesmo”... O Roberto Shinyashiki sempre diz que cada um de nós é a pessoa que a gente escolhe ser e você pode escolher ser você mesmo de diversas formas. Quem quer ser grande, precisa se adaptar ao comportamento de grandes empresas, aceitando críticas e cobranças. O bom líder não é o que dá tudo aquilo que o liderado quer, pois se assim o for, ele não está sendo líder. Um bom exemplo disso é aquele pai que diz que o seu filho de 3 anos de idade está tão rebelde que o casal já não consegue mais ter vida social... “tão pequenininho e já manda em mim”... 

Quem é líder nessa situação acima, o pai ou o filho? Por isso, sempre que iniciamos uma relação, precisamos perguntar o que a outra parte quer e, a partir daí, decidirmos se estamos dispostos a oferecer aquilo... seja ao se matricular em uma escola, ao aceitar um emprego, ao contratar um funcionário ou receber um novo aluno... assim como deveríamos perguntar também antes de escolhermos alguém para o casamento.