quarta-feira, 2 de abril de 2014

Você quer brincar do quê?

Dizem que feliz é aquele que faz do seu trabalho, uma grande diversão. Eu já ouvi isso uma quantidade enorme de vezes e, em algumas delas, cheguei à conclusão que estava na carreira errada. Eu pensava que, em vez de diversão, a área comercial me perecia uma grande tortura onde eu teria que depender de uma série de variáveis para poder cumprir meus planos e ser feliz. Diversão, para mim seria outra coisa, como escrever, ouvir rock'n roll, jogar futebol, etc. Foi numa destas situações, em que eu estava especialmente confuso, que reencontrei meu primeiro gerente, da época em que eu era ainda um adolescente. Já escrevi sobre ele aqui neste blog...

Me encontrei com o Walter pela ultima vez, já faz uns quinze anos. Nesta ocasião, ele me perguntou qual era o meu sonho e eu respondi prontamente, falando em qualidade de vida, oportunidades de viagem, uma bela residência e mais algumas coisas. Ele perguntou também, quais eram os meus objetivos profissionais, o que também foi respondido de pronto, considerando que naquela época eu já falava em treinar, escrever e palestrar. Aí ele me perguntou quais eram as minhas metas e eu repeti a mesma resposta que havia dado para os objetivos... ou seja, me parecia tudo uma coisa só... Então ele passou a me explicar as diferenças entre sonhos, objetivos e metas...

(Leiam o parágrafo a seguir como se o Walter tivesse escrevendo)
"Sonho é o que você quer para a sua vida... Sonho é o que te move... Você faz muitos sacrifícios durante sua existência para poder realizar seus sonhos, como você deverá fazer para ter sua bela casa, para poder viajar e alcançar a qualidade de vida que deseja. Objetivos, como a própria palavra já diz, são os resultados que você prevê e que deseja ter, seguindo uma determinada estrategia, como poder treinar, palestrar e escrever. Quando você chegar a este nível, terá guardado dinheiro suficiente para comprar uma boa casa, para viajar, etc. Já as metas são as tarefas imediatas que precisam ser vencidas para alcançar o plano anteriormente estrategiado. Se você se acostumar a cumprir as suas metas, em médio prazo alcançara seus objetivos e em longo prazo realizará os seus sonhos."

Depois de ter ouvido isso, passei cerca de oito anos da minha vida pensando sem conseguir entender por completo as palavras do Walter, mas seguindo-as. Ele disse que eu tinha que cumprir minhas metas e, se precisasse, eu me ralava para conseguir... de tanto cumprir minhas metas, os negócios evoluíram e eu comecei a viajar um pouquinho. Decorei minha residencia e viajei mais um pouquinho... formei gente pra fazer o que eu fazia e viajei mais um pouquinho... Curiosamente, naquela época, com os resultados em alta, eu não reclamava de nenhuma dificuldade com a área comercial e pensava sempre que havia chegado a um nível onde eu não precisava mais sofrer para trabalhar.

Poderíamos finalizar este texto por aqui, mas a parte mais importante e edificante vem agora: com parte dos meus sonhos realizados, eu me acomodei. E sabe o que aconteceu? Deixei de cumprir algumas das minhas metas, mas acreditava que isso seria passageiro e que elas voltariam a acontecer naturalmente. Nos anos seguintes eu perdi alguns bons parceiros e vivi uma crise profissional. Nesta fase da minha vida, depois de algum tempo, eu voltei a sofrer para fazer o meu trabalho, como se "as coisas" não estivessem mais dando certo. Voltei me questionar se era realmente aquela a carreira que eu gostaria de seguir, afinal havia tantas outras coisas que eu poderia fazer com mais prazer... Pensava que se eu fosse um jogador de futebol, ainda que jogando na terceira divisão eu seria feliz (mas na terceira divisão, eu não seria)... Se eu tivesse uma banda de rock, ainda que cantando na garagem de casa, eu poderia ser mais feliz (mas quem me sustentaria para isso? Ou seja, na garagem eu não seria)... Se eu fosse um escritor, ainda que destes não publicados eu seria mais feliz (se não fosse publicado, eu não seria feliz)...

Depois de mais um tempo, cheguei à seguinte conclusão: eu posso trabalhar, ter sucesso na área comercial e financiar meus jogos de futebol com os amigos, assistir aos consertos de rock que me interessam, viajar e escrever meus textos não publicados... Depois e cair na real, a crise passou, os meus resultados subiram e a única coisa que definitivamente caiu foi "a minha ficha". Percebi que o problema do sofrimento no trabalho não está na carreira escolhida e nem nas tarefas a serem realizadas, mas sim na falta de resultados... E a falta de resultados vem porque somos invariavelmente teimosos, querendo que as coisas aconteçam do nosso jeito. Quando elas não acontecem, em vez de adotarmos a forma correta de fazer, damos uma de criança e gritamos: "não quero mais brincar"...

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