domingo, 23 de outubro de 2016

A experiência que te atrapalha


Uma das grandes diferenças entre o mercado de trabalho atual e aquele que a geração passada conheceu está na valorização da experiência. Antes, as empresas faziam questão de contratar pessoas pela experiência que tinham naquela função e hoje, ao contrário de antes, observa-se muito o perfil. E os motivos são muitos, tanto que vou convidar você, leitor, a viajar um pouquinho comigo pelo tempo e observar os cenários de cada época.

O Brasil dos anos 70 e 80 era muito fechado ao resto do mundo. Vivíamos com uma “Reserva de Mercado”, quando era proibido importar qualquer produto que tivesse um similar sendo fabricado no país. Isso, além de desestimular a qualidade daquilo que produzíamos, ainda gerava um certo comodismo daqueles que trabalhavam nas poucas indústrias nacionais, pois eram detentores de técnicas que pouco mudavam e quase nunca se tornavam obsoletas. As pessoas ficavam 30 anos numa mesma empresa, no mesmo emprego e alternando muito pouco de função. O cidadão se tornava especialista numa só área e se acontecesse de se desligar, teria foco certo em se empregar na mesma atividade em alguma das concorrentes, pois era isso que “tinha na carteira”. A experiência, para quem contratava, significava uma enorme economia de tempo e forças, uma vez que a adaptação do novo funcionário seria muito mais simples, dependendo apenas de alguns detalhes do ponto de vista pessoal, uma vez que a função já lhe era dominada.

Depois da abertura das fronteiras nos anos 90, com a chegada das multi-nacionais, com a concorrência no mercado de trabalho trazida por elas, a estabilidade financeira trazida pelo plano Real, acesso das pessoas as universidades e o crescimento do emprego nos primeiros anos desta década atual, as empresas mudaram bastante o seu comportamento e deixaram de dar a vaga disponível a um candidato simplesmente porque ele tem um carimbo na carteira que comprova sua experiência. A partir daí, outros fatores passaram a contar, como o comportamento, o curriculum acadêmico e a capacidade de se comunicar com o mundo. A fluência em outros idiomas se tornou determinante, já que com a tecnologia é mais fácil ensinar um novo trabalho a alguém do que esperar que ele faça um curso de inglês, correndo o risco ainda do tal curso não dar certo.

Mas de alguns anos para cá, um novo ponto tem sido observado, que é o da experiência negativa. Algumas pessoas que passaram por empresas ou carreiras decadentes, ou ainda que tiveram uma fase prolongada de fracassos contínuos tem tido dificuldades de se levantar. Os recrutadores tem se importado em observar a auto-estima dos seus candidatos e também o quanto eles podem estar desacreditados em uma determinada coisa simplesmente porque tiveram experiências ruins com aquilo. É como se um jogador de voleibol veterano (independente de sua condição física) não pulasse mais em busca de uma bola por não acreditar que seria possível defendê-la, enquanto o mais jovem, por mais que possa errar na técnica da recepção, estaria com fome de jogo, se lançando até nas bolas perdidas.

De uma maneira geral, isso acontece também com profissionais de vendas experientes, que deixam de trabalhar a prospecção porque se tornam negativos, pensam na crise, na resistência do mercado às suas técnicas de abordagem já “manjadas” e, com isso, acabam por se tornarem o “Herói Cansado”  do livro do Julio Ribeiro, ou mesmo aquela hiena pessimista dos desenhos de Hanna & Barbera. Em contra-partida, o jovem vendedor que entra na sua equipe com fome de bola, até diante de sua inexperiência, “põe a mão em qualquer bicho de jardim”, se atira nas oportunidades de encontrar novos clientes e, entre perdas e ganhos, acaba o mês com resultados mais expressivos do que o “velho sabidão”.

Se acima eu apontei uma doença corporativa causada pela experiência, abaixo quero oferecer o antídoto, que é puramente comportamental:

Jamais se renda a mesmice. Um mercado dinâmico e concorrido como o atual não dá espaço a quem quer sombra e água fresca. Seja jovem independente de sua idade… abandone o seu lado conservador, dê graças às novidades que surgem, jamais rechace uma nova tecnologia e nunca (nunca mesmo) demore para usar uma ferramenta mais moderna que lhe seja oferecida. Se você pensa que pode já ter caído neste erro, a boa notícia é que ainda dá tempo de mudar sua postura… Não se recuse a gostar do moderno, no mercado atual não existe o “prefiro do jeito antigo”… o seu concorrente não vai preferir e o seu cliente também não. Acorde neste minuto, pois se ele passar pode ser que você passe junto. Jogue fora a experiência que te desencoraja e use a boa, que serve pra te tornar o exemplo e motivar os mais jovens a fazerem o novo, como você.

Texto originalmente publicado em 21/10/2016 em LITERARE BOOKS

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